Antes de embarcar  para Berlim, fui pedir a benção da minha velha avó polaca. Desbocada como sempre, babucha só me fez um alerta:

– Édio, cuidado com o que você vai botar na boca.

Neto obediente, em Berlim chegado  me instalei, rapidinho, no Hostel X-berg. Fica na fronteira entre dois bairros inzoneiros: Kreuzberg e Neukoln. O maior barato:

Penso  na minha velha avó polaca de Ponta Grossa, Paraná, Brasil –  Édio, primeiro coloque um chazinho na boca. Peço o conselho do Andreas, colega de baixo no beliche.  E corro direto para o barzinho indicado por ele:

Agora, sim, não estou sentindo nada e posso começar de verdade esta minha viagem pelo underground de Berlim. Se quiser, tu podes me acompanhar. Sem colar na mala, meu. Desgruda,  senão a ponte balança:

Espera aí que depois eu continuo o papo porque agora vou dar um chega nesta  fraulenzinha de vermelho aqui na minha frente. Não posso acabar sozinho nesta minha primeira noite aqui em Berlim.   Florzinha!!!

É. Ela se foi. Tem nada não. Enfrento o túnel sozinho, quer dizer, conto com a tua mala companhia. Era aqui a troca dos espiões capitalistas pelos comunistas. E vice e versa. Oberbaumbrucke:

Pô, estou doido para sair deste underground e achar um barzinho onde molhar a boca que fica do outro lado. Onde mesmo? Será que eu trouxe o endereço?  Ah, esta saliva seca travando minha garganta:

Continua o  sufoco  nesta minha boca. Ainda bem que a minha velha avó polaca me deu um só conselho. Qual foi? Esqueci na primeira meia hora. Tu estás lembrado?  Vamos sentar, conversar e fumar um pouco:

 

Aqui neste banco, sinto assim alguma coisa  na cabeça, meio que zoando. É  tipo Bossa Nova, João Gilberto, sentado ao meu lado, em Berlim. A gente sussurrando:

– Ai … que saudades  …  eu tenho  da Bahia … bem  … que minha avó dizia:

Bom, gente.  Agora estou  em condição de entrar no barzinho indicado pelo meu colega de baixo no beliche do hostel aqui em Berlin. É que voltei a não sentir nada outra vez. Então, vamos juntos nesta:

Se aqui do lado de fora está assim, imagina lá dentro. Só tem uma coisa. Eu não tenho mais certeza de nada. Não sei se estou entrando no Magnet, no Arena ou no Soulcat. E faz alguma diferença, minha avó?

Continuo sem sentir, quer dizer, sem entender mais nada. Sacanagem do Andreas, o colega de baixo no hosteL. Ele me garantiu que aqui era o maior agito. Tudo live na life da vida. Heil !!! Som na caixa:

Ih … agora estou sentindo tudo outra vez.  O que é mesmo que eu estava contando?  Quem és tu  aqui ao meu lado escutando minha conversa? Ah, me lembrei. Tu és a minha velha avó polaca. A bença:

Só me lembro, agora,  que acordei ao lado desta gatona berlinense cantando com aquele bocão grudado aqui no meu ouvido polaco de boca fechada:

– I got you …  baby!!!  Got you … baby!!   G ot …

Foi o tempo de pular do chão, vestir a roupa do lado (parece que peguei, trocado, algo dela), sair para debaixo da ponte, pegar o táxi, que depois descobri ser um carro da polícia, e mostrar ao distinto motorista este cartão que eu achava que era o endereço do meu hostel:

Então, auviederzen, minha avó. Shus. Continuo de boca fechada. Não falei nada    nem pro advogado que o seguro de viagem me mandou. Florzinha, nestas alturas da viagem, já se mandou. E digo eu: inté e axé.

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