As novas estagiárias estão ficando velhas cada dia mais cedo

       “Entro na redação e vejo uma estagiária. Vocês, que não conhecem os subterrâneos de jornal, não imaginam como uma redação é povoada de seres misteriosíssimos. Procurem visualizar uma paisagem submarina. Há peixes azuis, escamas cintilantes, águas jamais sonhadas. De vez em quando, sai de uma caverna um monstro de movimentos lerdos, pacientes, etc. E passa um peixe sem olhos, que emana uma luz própria”.

muro de brasilia 15

             Meu velho  Nelson Rodrigues.
            Não sei se você se lembra de mim. Eu era aquele estagiário barbudo, meio hippie,  maconheiro, que  enchia o seu saco,  no jornal O Globo, no Rio – é, ainda estou vivo – e a quem você me respondia:
          – Polaco. Se você ficar pelado, aqui  e agora, nesta redação, você vira jornalista . Não precisa nem calçar sapato. Pode continuar vindo descalço.
         E eu:
        – Ô velho. Por que você não manda ali a  estagiária Regina ficar pelada?
       E ele:
     – Por que ela tem calcanhar sujo,  é estagiária, não pensa, não lê e, por isso,  não sabe escrever.
     Pois estou  escrevendo, num novo notebook, meu velho Nelson Rodrigues, para contar que hoje chegou uma leva nova de estagiárias aqui na Rádio Nacional. Nem todas são da PUC local, chamada de IESB, grana alta para passar de ano. O calcanhar delas não é mais sujo. Parece que continuam sem pensar porque me disseram que nunca leram um tal de Nelson Rodrigues. Mas tem uma coisa, meu velho fantasma de meu dias de estagiário, que faria você relinchar agora aí no seu túmulo.
     Eu tenho notado que as estagiárias de jornalismo de hoje em dia são diferentes daquelas do nosso tempo. As de hoje estão envelhecendo muito cedo. Bastam duas semanas de trabalho e se acomodam. Pois veja você que na última greve,  aqui na Rádio Nacional, ano passado, sabe justamente quem mais trabalhou? Foram as estagiárias, com medo de perder, porra, o emprego. As de hoje estão velhas, retrógradas, acomodadas antes mesmo de virarem jornalistas. Mesmo assim, eu insisto, e mostro a elas um conto seu, escrito em 1969, que fala daqueles tempos em que víamos estagiárias e, principalmente, redação,  como um ambiente ontem tão familiar, e por estar já sepultado,  hoje fantasma:
    Bom, meu velho, outro dia eu falo de quando recebi a notícia da sua morte, em dezembro de 1980. Estava eu num bar sujo em Cristalina, Goyaz, de olho nos peitos limpos da garçonete, eu tinha acabado de tomar um chá de cogumelos na Chácara dos Sonhos, pelado no rio Topazinho, quando escuto na Rádio Nacional, no fanhoso aparelho ligado, o seguinte:
   – Acaba de falecer o Anjo Pornográfico Nelson Rodrigues. 
     Na mesma hora, perdi o tesão na estagiária, quer dizer, na garçonete. Culpa sua, meu velho.
   Ah! Só para terminar. Indiquei para o bando de estagiárias novas, porque ainda estão na primeira semana, o link (sei que você não sabe o que é isso) com o seu conto completo sobre elas numa redação. Vamos esperar o retorno. Duvido que alguém vá lê-lo, meu velho.
  Assinado
  Do seu estagiário, Mamcasz, aquele que trabalhava descalço.
  Dê lembranças pro Tim. Ah, o link:
http://www.bemtv.org.br/portal/educomunicar/pdf/baratissima.pdf
 
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