Começamos hoje, junto com a Rádio Nacional de Brasília, as comemorações pelos 50 anos de Brasília (21 de abril), independente das moscas que vicejam no gramado da Esplanada dos Mistérios, em especial na Praça dos Podres Poderes, enfim, tudo sempre foi um Detrito Federal mesmo.  Este pri-meio epsisódio, na forma de radionovela, Jerônimo, o herói do sertão de Goyaz,  leva a seguinte manchete: 

        Funcionários da Rádio Nacional promovem primeira invasão de prédio em Brasília.

         É isso mesmo. Bem diferente da atual letargia. O fato aconteceu, mesmo, com a primeira turma,  que veio da Rádio Nacional do Rio, com foguetório lá na saída da Avenida Brasil, buzinaço e tudo. 

        Aqui chegando, transferidos, a tempo da inauguração da TV Rádio Nacional (era assim que se chamava a antecessora da futura atual TV Rádio Brasil), os funcionários cariocas, malandros, descobriram que os prédios de moradias aqui já construídos eram entregues somente para quem tinha padrinho. 

        E o fato de um dos funcionários da caravana Rio-Brasília ser filho de um apresentador famoso da Rádio Nacional, puxa-saco do JK, e pronto para puxar o do Jânio Quadros, e depois iria também fazer o mesmo com a milicada de 64, pois bem, este dado ajudou bastante uma invasão sem o imediato sumiço corporal, que costumava acontecer, por parte da temida GEB ( Guarda Especial de Brasília). 

         Inclusive, tem um pedaço do Lago do Paranoá, ali pros lados do Minas Brasília Tênis Clube,  onde até  hoje aparecem fantasmas desesperados que   foram simplesmente afogados pela GEB porque pretendiam atrasar a obra do século, fazer greve de fome, sei lá mais o que. Uns bandidos…

           Mas voltando à invasão de um prédio por parte dos funcionários da Rádio Nacional de Brasília, motivo mor desta prosa. 

           Havia um prédio pronto, sem ter sido ocupado pelos afilhados, na SQS 410 (Super Quadra Sul).  Ele tinha sido inaugurado em dezembro de 1959, mas não estava ocupado no todo. Tinha até a placa, hoje a preferida dos pombos que, junto com os mendigos de praxe, disputam os restos de um supermercado 24 horas que existe na entrequadra comercial da 412/13:         Agora, sim, vamos ao relato dos fatos, estilo Alô, alô, Repórter Esso, Melhoral, Melhoral, se tomar não faz mal…

          Estamos na madrugada do dia 21 abril de 1960. Dia  da inauguração da TV Rádio Nacional, no começo da W3 Sul.    Soubemos que o prédio em questão, o blobo E da 410 Sul,  estava reservado para o uso de enfermeiras  e por isso a participação de uma  amiga, do comum subúrbio do Rio, uniformizada, boa o suficiente  para distrair os vigias,   foi fundamental para a  furada do cerco montado pela segurança do pedaço. 

          A enfermeira, o motorista, um chaveiro e um funcionário da Rádio Nacional formamos o grupo de ataque avançado, de madrugada, na calada, com a desculpa de atender um doente. 

          Na verdade, nós abrimos as portas dos blocos do prédio, escolhido de comum acordo, tinha até uma Comissão de Funcionários que funcionava e naquele tempo se chamava Comitê.  Daí, tinha o chaveiro, trazido da Cidade Livre, ouvinte da Família Nacional, que foi,  não arrombando mas, simplesmente,  abrindo, gentilmente, as portas dos apartamentos, sem acender a luz e nem chamar a atenção. Sem dar bobeira, como dizíamos, cumpádi, ninguém podia dar mole com X-9, aliás, isto vale até hoje, né, mano velho?

           Ah … a enfermeira,digamos que se chamasse Lurdinha que, de fato, foi numa Lambreta, dela, as duas cobiçadas por muitos, na frente da ambulância,  e    ficou enrolando os vigias com aquela conversa de carioca e tal, enquanto o médico, blábláblá … quáquáquá … e a gente só escutando, no escurinho da miniquadra,  das 400, porque super é das 100, só quem é de Brasília decifra este papo mole.

            Só reforçando a tradução do fato.

           Enquanto isto, nós, funcionários da Rádio Nacional, aqui unidos, exigimos uma grande festa pública pelos 50 anos de Brasília, quer dizer, desculpe, chefia, saiu sem querer, a cabeça viaja no mocó deste escurinho, porque Brasília ainda tinha a luz semelhante ao de uma noite de lua cheia, no imaginado pelo obliterado Lúcio Costa.

          Continuemos, pois não estamos ainda sob os efeitos eflúveos do deglutido  Orlando Silva.

          Imaginemos um bando de funcionários da Rádio Nacional,  com os apetrechos poucos,   por perto, fora da quadra, alguns em pequenas caminhonetes tipo Rural Willyan,  com utensílios domésticos, outros a pé mesmo, para o Plano B, caso os carros fossem barrados na entrada da quadra.

           É … a gente trazia o velho esquema da Lapa, a dois da passos da Praia Mauá, ninguém dava vacilo, naquele tempo, hoje, não…

           

          Os coordenadores da invasão, que de fato aconteceu,  foram os funcionários Dedé Santana (dos futuros Trapalhões, ele tinha uma boate na Cidade Livre, atual Núcleo  Bandeirantes, onde os artistas da Rádio Nacional, a começar por ele,  completavam o eterno magro cachê), mais o  Paulo Netto, Sérgio Iglesias, o Ceará e os músicos Malta, Condorciê e Miudinho. 

          Então, nós, futuros cumpanheiros comprometidos, uma bicada na caninha que já são  três da madrugada, 21 de abril de 1960, tudo pronto, o pessoal com as bagagens nos caminhões, ouvimos o músico Bernard, o melhor forrozeiro na Zona Sete Quedas,  na saída de Brasília, todo mundo ia lá, as polacas-baianas-francesas-goianas-judias no esforço conjunto para modernizar o Brasil, bom, o corneteiro oficial da trupe nacional faz o que? Ora, meu, fez o que ele sabia fazer, e só isso, mas bota importância no cara. Ele tocou a corneta, três da madruga, 410 sul, 21 de abril de 1960, em nome dos funcionários da Rádio Nacional, que começaram a invasão.

           Pra quê, o meu. Foi funcionário  da Rádio Nacional saindo de tudo que é canto do capim ralo do cerrado cheio de pó, até hoje,  de construção, e de tudo mais, aquele ceuzão estrelado em cima, para a invasão propriamente dita, rápida, segura, desnorteante. Esses sem-terra profissionais  de hoje iriam ficar de baba caindo no umbigo sobressaltado aparecendo no buraco do botão faltando na camisa.

          Foi o maior fuzuê, malandro. Até a enfermeira Lurdinha, a cobiçada, inclusive pela Lambreta, ajudou os meganhas a xingar os criminosos invasores da propriedade pública. Tudo combinado porque  o apê dela já estava reservado pela turma e inclusive um próximo emprego no sempre desmilinguado Serviço de Saúde da Rádio. 

           Enfim, tudo terminou rapidinho  porque de manhã a gente  tinha que estar na inauguração da TV Rádio Nacional, trabalhando, o próprio JK ia estar lá, a gente sabia disso. Lógico que a gente não era bocó nem jeca e por isso deixamos uns amigos mais fortes tomando conta do pedaço, eram uns leões achados na chácara de uma boate bem frequentada pelos pau-de-arara mais lascados  que adoravam ouvir  Emilinha, a Rainha do Rádio, que a gente vivia prometendo que um dia a gente iria levar  ela lá na zona.

           Observamos, a bem da verdade histórica,  ainda o seguinte:

          Sobre  a festa da inauguração da TV Rádio Nacional, no terreno original que ia da W3 Sul até o futuro Parque da Cidade,  nós falamos noutro episódio desta série da Rádio Nacional e os 50 anos com Brasília

            Só acrescentamos, e aqui falamos no plural porque foi uma ação de grupo,  que a polícia especial, ao saber por nós mesmos, na hora, que a gente   era da Rádio Nacional (do Rio, a poderosa, a Globo da época), achou melhor passar o assunto pros Israel Pinheiro da vida, que levaram o fato pro JK. 

           No final da inauguração, na mesma manhã,  alegre com os acordes da Sinfonia da Alvorada (Tom-Vinicius malandramente colocaram as vozes de JK, Israel Pinheiro, Lúcio Costa e Niemeyer), o mineiro Bossa Nova, papo que enrolava até carioca, chegou pro cinegrafista filho do apresentador famoso, que na hora estava ao lado do presidente JK, e jogou uma meia trava prá cima da gente, tipo assim, ó: 

           – Mas vocês, hein? 

          Moral: 

          A primeira invasão de prédio público em Brasília foi feita por funcionários da Rádio Nacional. O prédio tá meio firme até hoje. Ói ele aí: 

 

         Então, tá. Inté e Axé!

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