Por do sol em Orly, sudoeste de Paris, na volta para a pátria que me pariu. Que nem a letra do samba: Vai, meu irmão, pega este avião e não diga nada...
Por do sol em Orly, sudoeste de Paris, na volta para a pátria que me pariu. Que nem a letra do samba: Vai, meu irmão, pega este avião e não diga nada…

Pois foi assim a minha largada de volta para o meu padrasto emergente do Terceiro Mundo. Nos meus ouvidos, ainda zumbem  a letra e a música de Chico, Toquinho e Vinicius, feita nuns tempos em que vir a Paris era diferente. Voltar, então, nem se fala:

“Vai, meu irmão
Pega esse avião
Você tem razão de correr assim
Desse frio, mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão. “

E não é que um aventureiro-soldado-politico-polícia, armado ou não, já tomou conta do Rio? Mas avisa lá que mesmo assim tô voltando. Tu sabes do que estou falando, NE, Mané? Ah… falando em Manuel, tive antes que passar por Lisboa, o vôo era da TAP, que está se fudindo com a TAM, cego com perneta, tanto que ninguém sabe quem está comendo quem. Depois explico. Tem lance na Bolsa e tudo.

Tô nessa porque de manhãzinha aporto em BrasILHA, a capital da esperança de 21 milhões de brasileiras e brasileiros que continuam classificados como indigentes abaixo da linha da miséria. Chego às cinco e pouco da madruga desta segunda  e lá pelas oito já estarei no meio dos fantasmas de sempre, falsos vivos ou amortecidos. Tem até a Assembléia dos Empregados da EBC para decidir o dessídio. Ou seria dicido? Parlez vous tupi or not?

Mas em Lisboa, no aeroporto que é mais aeroporto (juro que não entendi esta piada de português), até porque na ala em que estavam confinados mais de 500 brasucas para os vôos TP de Lisboa para Brasília, Rio e São Paulo, em aviões  separados, (La Pinta, La Nina e La Santa Maria) pois, pois, e não é que só havia banheiro único, válido para homem, mulher ou outro aderente, com o detalhe que o gajo pode ver na foto avisando, ói:

MÃOS LIMPAS. COMECE AQUI.

Olhei para os lados, vi as caras de alguns brasucas saudáveis, e juro que,outra vez, não entendi a piada do portuga. Falar nisso, tinha brasuca bicha que faz a vida ilegal em Barcelona, empregada doméstica vindo de Milão, Itália, para Imperatriz, Maranhão, visitar a família (???), pau de arara, quer dizer,pau pra toda obra, ilegal em Londres e que vai visitar a mulher em São Paulo, e até umas meninas, saudáveis mas nem tanto, que faziam a vida em Madri, até que a crise chegou. Tudo com mãos saudáveis, pois, pois, mané. Ah… tinha um pessoal de Brasília….

                    Privada em Lisboa - Photo by Mamcasz

Aeroporto que é mais aeroporto. Pois sim. Você chega de Paris, desce do avião, entra num ônibus lotado, anda uns dez minutos (verdade), espera numa sala que não tem nada, banheiro unisex e tudo. Depois, desce pela sanfona, entra noutro ônibus lotado, anda mais dez minutos, entra no avião, e daí …. pois então, Dom Pedro Cabral, tá esperando o que? liga o motor, solta as amarras e bota a música na caixa:

– Se esta porra não virar, olé, olé, olá!!!

Por um instante, até me esqueci que estou voltando sozinho porque minha fêmea resolveu mesmo ficar em Paris, fazer o que, mulher corajosa, Maria Bonita, filha de pai que caçou o dito Lampião.

Aeroporto de Lisboa - photo by Mamcasz 

Então, te cuida, Brasil, que tô chegando de volta à esta puta pátria que me pariu. Acho que vou treinar tiro à distância pro Rio-16.  Ou corrida em carrinho de supermercado com morto dentro.  Ou mentir em palanque em 2010. A gente chega lá. Quer dizer:

– Se esta porra não virar, olê, olê, olá…

– Pegaram o piloto com a mulher do cobrador…

– Senhores passageiros. Apertem os cintos que estamos entrando abaixo da Linha do Equador.

– Boa noite, mané!

Paris-Brasília - Photo by Mamcasz

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