À minha mendiga amiga em Berlim
An meine obdachlose Freundin in Berlin

2022. Metro station line 7, Neukoln, a Berlin neighborhood mostly inhabited by strange foreigners, legal or illegal, so-called stateless. The BVG clock shows 11:55 PM on a one Tuesday.
2022. Estação do metrô linha 7, Neukoln, bairro de Berlim habitado, na maioria, pelos estranhos estrangeiros, legais ou ilegais, ditos apátridas. O relógio da BVG aponta 23h55m de uma terça-feira.
2022. U-Bahn-Station Linie 7, Neukölln, einem Viertel Berlins, das überwiegend von seltsamen Ausländern bewohnt wird, legal oder illegal, sogenannten Staatenlosen. Die Uhr der BVG zeigt 23:55 Uhr an einem Dienstag.

We’re going down the staircase, poorly lit and pretty unsafe. We brush against a scruffy old lady. A homeless woman. One of her hands is holding a bag, shaped like a little cart, tenderly, full of things she picked up from the trash. The strong, foul smell confirms what we suspected.
Estamos na descida da escada, pouco iluminada e toda insegura. Raspamos numa senhora maltrapilha. Moradora de rua. Uma das mãos dela segura a sacola, na forma de carrinho, com carinho, cheia de coisas recolhidas no lixo . O cheiro fétido e intenso confirma o que inspiramos.
Wir gehen die Treppe hinunter, die wenig beleuchtet und ganz unsicher ist. Wir streifen an einer schäbig gekleideten Frau vorbei. Obdachlose. Eine ihrer Hände hält liebevoll die Tasche, wie ein kleiner Wagen, voller Dinge, die sie aus dem Müll gesammelt hat. Der faulige, intensive Geruch bestätigt, was wir eingeatmet haben.
Numa das mãos, ela se agarra a um arremedo de bengala. A outra, segura o corrimão para diminuir, se possível, a enorme dificuldade da descida, com possibilidade de queda.
O povo – turco, africano, latino e eslavo – passa direto por ela, tão invisível quanto eles no conjunto da atual obra germânica.

Continuemos o relato, real, da “Berlim Pandemônica” – título do nosso livro – num subúrbio perigoso, quase meia noite, na estação do U Rathaus Berlin Neukoln:
I, a Polish-Brazilian from Bahia, mistreated in the Wonderful South of Brazil, a white guy dressed neatly, coat and hat, stop in the middle of the dirty staircase, right next to the old street beggar, in this imperial Berlin. I offer help on the painful descent of the journey in this life of hers. She looks at me, surprised. I understand that she says to me, in silence, a big thank you and all, but that it’s not necessary.
Eu, polaco baiano, maltratado no Sul Maravilha do Brasil, branco alinhado, casaco e gorro, faço um stop no meio da suja escadaria, justo junto à velha mendiga de rua, nessa imperial Berlim. Ofereço ajuda na sofrida descida da Ida nesta dela Vida. Ela me olha, surpresa. Entendo que ela me diz, no silêncio, um muito obrigado e tal, mas que não é preciso.
Ich, ein baianischer Pole, misshandelt im wunderbaren Süden Brasiliens, weiß, ordentlich, Mantel und Mütze, mache einen Halt mitten auf der schmutzigen Treppe, direkt neben der alten Straßenbettlerin, in diesem imperialen Berlin. Ich biete Hilfe beim mühsamen Abstieg ihres Lebenswegs an. Sie schaut mich an, überrascht. Ich verstehe, dass sie mir schweigend ein großes Dankeschön sagt, aber dass es nicht nötig ist.
Então, tchau, senhora, ora quase liberta, quiçá, devido à Pandemia da Vida. Sigo a Madame até o meio da plataforma, mais seguro. Sentamo-nos num banco livre, com cheiro de mijo e vômito, na espera do trem, nesta altura o metrô passa a cada vinte minutos, o penúltimo desta noite.

I report to my Madame Cleide, eternal companion on trips over the past 50 years “From Alaska to Jerusalem” – the name of our other book – about what happened to the homeless lady.
Relato para Madame Cleide, minha eterna companheira nas viagens nos últimos 50 anos “From Alaska to Jerusalen” – nome do outro nosso livro – o ocorrido com a senhora moradora de rua.
Bericht für Madame Cleide, meine ewige Begleiterin auf Reisen in den letzten 50 Jahren „Von Alaska bis Jerusalem“ – der Titel unseres anderen Buches – über das Geschehen mit der obdachlosen Dame.
Na sequência, escutamos o barulho gasto das rodinhas do carrinho com as coisas do lixo da velha senhora mendiga. O cheiro amargo segue dois passos à frente dela.
As she passes by us, she looks at my spouse – Madame – and then at me – Ego. With her free hand, the one not on the subway stair railing, she gives me a reserved but intense goodbye, and speaks so softly that only I hear:
Ao passar pela gente, ela olha para a minha consorte – Madame – e depois para mim – Ego. Com a mão livre, a do corrimão da escada do metrô, ela me dá um tchau reservado, mas intenso, e fala tão suave que só Eu escuto:
Wenn sie an uns vorbeigeht, blickt sie zuerst zu meiner Gattin – Madame – und dann zu mir – Ego. Mit der freien Hand, derjenigen am Treppengeländer der U-Bahn, winkt sie mir schüchtern, aber intensiv zu und spricht so leise, dass nur ich es höre:
– Kümmere dich gut um sie, mein Freund, denn es ist hier gefährlich.
– Cuida bem dela,amigo, porque aqui é perigoso.
– Take good care of her, my friend, because it is dangerous here.
– She became your friend – Madame whispers to me.
– Ela ficou sua amiga – sussurra-me Madame.
– Ona stała się twoją przyjaciółką – szepcze mi Madame..

E assim continuamos, cada qual na sua, com ou sem casa, lar ou refúgio, o relato do acontecido com a gente, em Berlim, no pico feio, começo de 2020, todo mundo em casa, quem a tivesse, por suposto (leia livre no livro).
Acontece que este relato acontece em 2022, a gente de novo em Berlim, saboreando o gosto da liberdade de andar pelas mesmas ruas de onde os mendigos nunca saíram. Com ou sem Pandemia. Por falta de escolha.
• (This is a memory that we consider the greatest, not the best, from our book “Pandemics in Berlin,” in which we recount – Myself and Madame – our local experience right at the beginning of the Cursed Corona Pandemic – three months confined in Berlin, followed by three months in Brasília).
- ( Esta é uma lembrança que consideramos a maior, não a melhor, do nosso livro “Berlim Pandemônica”, em que relatamos – Eu e Madame – nossa convivência local justo no começo da Virótica Pandemia da Corona Maldita – três meses retidos em Berlim, seguidos de três meses em Brasília).
• (Dies ist eine Erinnerung, die wir als die größte, nicht als die beste, in unserem Buch „Berlim Pandemônica“ betrachten, in dem wir – ich und Madame – unser lokales Zusammenleben direkt zu Beginn der verfluchten Corona-Pandemie schildern – drei Monate in Berlin festgehalten, gefolgt von drei Monaten in Brasília).
• (Este es un recuerdo que consideramos el más grande, no el mejor, de nuestro libro “Berlín Pandemónica”, en el que relatamos – Yo y Madame – nuestra convivencia local justo al comienzo de la Vírica Pandemia del Coronamaldito – tres meses retenidos en Berlín, seguidos de tres meses en Brasilia).
• (To jest wspomnienie, które uważamy za największe, nie najlepsze, z naszej książki „Berlim Pandemônica”, w której opowiadamy – Ja i Madame – o naszym lokalnym życiu tuż na początku Przeklętej Pandemii Korony – trzy miesiące uwięzieni w Berlinie, a potem trzy miesiące w Brasílii).



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