2022



Madame, mais ainda. Juntos, nós dois temos o maior orgulho disto. Depois de quatro dias com a GLOTE quase fechada, no caso a da Madame, vamos ao Posto UBS-SUS, aqui no quintal de casa, Asa Sul da Bras-Ilha. Bora testar, gente! Sem marcar nem pagar nada. In loco, ar livre, gramadão, três espaços distintos: 1- Vacina Covid; 2- Teste Covid; 3- Espaço do Pós. Exercícios físico-psíquicos.

À chegada, 07h48m deste Dia de Iemanjá, Salve-Salve, está tudo auto-organizado, sem a participação dos funcionários, estes no chegando, afinal, tudo recomeça a partir das 08:00. De um lado, a fila intitulada dos “aborrescentes”. Do lado ao lado, a turma autoclassicada dos “jovens”, a partir dos 60 anos de ida. Na chegada de uma dona nos 84, todos lhe damos o direito de passar à nossa frente, com a posse da cadeira e tudo. Cedida, neste caso, por uma bela “aborrescente”.

No logo após o nosso posto, este casal polônico-pernambucana, estaciona um “jovem” atleta cearense, ciclista de longo curso, nos 68 anos de ida, especialista em bike somente pela praia, diz que só falta fazer o trecho de Porto Alegre-RS até o Uruguai, muito do conversador, só não vou com a cara dele depois que Madame me assopra neste ouvido polaco, sinto-me rebaixado:

Florzinha! Olha só o corpo dele.

Continuando, agora já no lado de dentro:

– Por que o senhor está aqui junto com a Madame se não foi chamado ainda?

– Por que ela é minha!

– Hein??? Já lá para fora e aguarde. Machista!

– Pode deixar. Ele é meu polaquinho. Tudo bem.

– Neste caso, por causa da Madame, faço uma ficha só. Primeiro, a senhora. Sentindo o que?

– Uma dor aqui na garganta, quase fechando tudo. Difícil engolir.

Pois vamos em frente, todos agora com as devidas senhas, um número bem maior para os “jovens” e o normal para os “aborrescentes”, motivo de piadas mútuas mas respeitosas. E começa a chamada: Senha número 1 especial. Na sequência: Senha número 1 normal. Prá quê. Os dois lados unidos, netas e avós personas, exigimos mudança na forma da chamada.

– E o senhor, deixa eu ver aqui na sua identidade. Que nome é este? Sentindo o que?

– Saudades.

– Hein??? Do que?

– Tem cinco dias que eu não posso dar beijo de língua na garganta de Madame.

Vamos em frente. Já estamos sentados, lado de dentro do quiosque, Madame na minha frente, nesta ida ao SUS para ver se somos um casal positivo ou negativo. Senta. Tira a máscara. Só no nariz. Boca fechada. Levanta a cabeça. Baixa um pouco.

– VAMOS???

– Fala baixo, mocinha, bela enfermeira, porque Ma Dame, aqui na frente, se ela escuta você me convidando, sei lá para onde, não tenho nada com isso.

Para que, gente. A enfermeira do SUS enfia o cotonete, molhado num tal de reagente, dá vontade de espirrar na cara dela, e na sequência enfia o mesmo no outro meu buraco, do nariz, lógico, mais fundo ainda, sussurro, não aguento, gemo um pouco mais alto, tanto que acordo Ma Dame à frente:

– Que foi, meu polaquinho. A moça aí está cuidando bem de você?

– Tá sim, Florzinha, ela é uma amor de menina.

– AINDA BEM!!!

Agora, todo mundo do lado de fora, aborrescentes e jovens, misturados, na conversa ainda animada, à mínima distância, no aguardo dos resultados, coisa de uns 20 a 30 minutos. Lógico que existe uma certa tensão, difícil tesão, ainda que possível diante da aborrescente quase loira, alta, bonita, que conta para as “jovens” sobre o pai que chegou nesta semana, do interior do Piauí, e trouxe, olha só, um jerimum amarelo, bem comprido, só porque sabe que eu adoro o purê de abóbora amarela. Ainda que agora, por causa desta dor aqui na garganta… Daí, ela é interrompido porque começa a chamada para entrega dos resultados dos exames:

– Fulana de tal.

– Fulano do qual.

Trata-se, neste caso, do sexagenário ciclista, aquele do corpo atlético observado pela Madame. Ao chegar à enfermeira, ela se demora em explicar algumas coisas, gestualmente, na hora todo mundo percebe, desolado, que o resultado do exame dele é positivo, tanto que logo após nós nos aproximamos dele, na distância de quase dois metros, e lhe damos força, e lamentamos porque ele havia contado, pouco antes, que se o exame desse negativo ele ia sair direto para a sessão de massagem. E lá se foi o sexagenário atleta ciclista, visivelmente amuado. Não é para menos.

Nas chamadas seguintes, entre a simples entrega do atestado negativo ou da parada para algumas palavras para alguém positivo, no caso, muito chato porque é no teste para ver se está mesmo com esta merda de Covid, acontece outro astral coletivo rebaixado quando justo na simpática mocinha do Piauí, do purê de gerimum amarelo a enfermeira começa a falar com ela. Na platéia, é nítida a sensação da vontade de dar uma força especial.

Vamos em frente, desculpe a demora mas a tensão aumenta, no sentido pessoal, deste casal, tesão nesta hora sei lá onde se foi. Pois então. Cleide de Oliveira!!! Ma Dame. Lá vai ela, ainda com a dor na garganta. Pega o papel e segue em frente. A enfermeira não fala nada. Me dá uma vontade, gente, de pular em cima dela, ali na frente de todo mundo, e dar aquele festivo beijo de língua que alcance lá no fundo da garganta quente. Mas me seguro. E nada de chamarem o meu nome. Seguem umas cinco na minnha frente. Opa. Agora ela me chama:

– Eduardo Mam… Mamc….Mam-cá…

– Sou eu. Pode falar. Estou preparado.

– Como se fala este nome esquisito?

– Mám-tcha-zen.

– Toma.

– Não vai falar nada?

– Não. Por que?

– Nada…

– Olha lá aquela mulher bonita te chamando.

Pois vou “corendo tudo”, como se fala em polaco, porque Zéfa “tá no meu espera”, ainda mais agora eu sou uma PESSOA NEGATIVA. Chego no “pé cá outro já lá”, boca aberta, braço estendido, de olho na língua dela, até que a mão forte de Madame me segura nos beiços e ordena:

– Agora, não. Não vê que tô fumando?

– Então, tá. Mas você está parecendo…

– Com que?

– UMA PESSOA BEM NEGATIVA.

– Vamos, polaquinho.

– Fui, né. “Corendo tudo. Pé cá outro bem lá.”

Mil graças, minha Iemanjá, porque hoje é dia Dois de Fevereiro. Só falta o mar nesta Ilha. Tem nada não. Está vendo como vale a pena ser uma Pessoa Negativa? Com todo respeito e força à tanta gente no Positivo. Vai passar.

Inté e Axé.


( pelos 700 mil mortos pela covid )

+ + + + + + +

can we be or not o be but what

podemos ser ou não ter o quê

le wa ni odun titun tun titun ti

ano novo e também vida nova

new year and perhaps new life

ndunú odun titun eniyan mo ti

if the nine out almost nothing

noves fora nos der quase nada

ndunú odun titun mo ti ni tabi

nos naufrague na ilha da virada

feliç nov gent jo puc ser o tenir

continuemos neste periclitante

aber wenn neun scheint nicht

juntemos lá na frente um rever

possamos ter um ano novo vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mogę być albo nie mają nowy rok to

viremos poeira cósmica nos infinitos

życie al jeśli dziewięć wydają prawie

ou ressuscitemos juntos nos saudosos

reajuntes lá na frente do nosso rever

frohes neues jahr menschen ich kann sein oder

abracemos juntos você e eu incandescentes

reajuntemos lá na frente o nosso reaver

feliç any nov gent jo puc ser no tenir

e però si nou semblen gairebé

possamos no então ter

ano novo vida nova

noves fora o nada

possamos ser ou não ter

ano novo e vidas novas

noves fora quase nada

peux être meme ou non

aussi une nouvelle vie

possamos o não ter

ano novo também vida nova

mas se nos noves fora der quase nada

mesmo que sucumbamos nas praças dos embora

enfrentemos juntos os mais que anônimos inoperantes

mas nos juntemos lá na frente novamente no nosso rever

então nos cliquemos neste recomeço do quase fim: