A bença, minha santa irmã Dulce. Hoje toda gloriosa, no Vaticano, longe da Baixa do Sapateiro e da Ladeira das Primas da Conceição, mas ainda perto dos políticos arretados que te cortejam em troca dos subditos subsídios nem tão públicos, pensa que não sei?

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– Polaco ateu!!!

– Eu???

Lembrei-me de ti quando estive em Calcultá e visitei a índia Teresa com quem falei de ti, do teu desapego, dos teus afagos e dos teus desejos. Pois não te lembras, Irmã Dulce, quando te visitei, em Salvador de tantos santos anônimos alagados nas calçadas e nos pelourinhos?

– Polaco bocão!!!

– Eu???

Pois falo. Eu era hippie, mostro a foto e obro a coelha. Corrido do Paraná, com passagem pelo Rio e, ainda não sabia, direcionado a Brasília. Hoje, aqui em Berlim. Por falha de formação, noviço capuchinho, franciscana quem nem tua ordem, vestido marrom e tudo …

– Polaco virgem!!!

– Eu???

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Pois conto. Fui na casa da Irmã Dulce, ora santa. De fato, em Salvador, eu hippie, fui até Irmã Dulce e me ofereci a prestar algum serviço aos que lhe eram sacros, os pobres soteropolitanos-baianos até hoje crentes nas promessas de políticos baratos originados do mesmo sujo prato.

– Pega leve, polaco!!!

– Quem tá falando???

– ACM, amigo da Dulce.

– Só se for da Dulce Figueiredo.

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– Continue, polaco!!!

– Obrigado, minha santa. Contínuo, continúo. Boto acento no assento que eu quiser. Conversei de fato com a agora Santa Dulce. Baiana e santa – difícil de acreditar. No que? Primo, que ela seja, de fato, mãe baiana.

– Stop, polaco!!!

– Paro nada. Desculpe, santa Dulce. Minha irmã. Nossa, nunca me esqueço da conversa que ouvi de ti. Sob os efeitos do meu passado no seminário capuchinho no Sul Maravilha, ora hippie auto-largado na Bahia, ofereci-me na boa para prestar serviços voluntários. Pois ouçamos o me disse, na época, a este polaco eterno pecador, então misto de pescador, includo a posse da tarrafa amiga, a ora gloriosa Santa Irmã Dulce da Bahia de Todos os Santos:

Polaco. Continue hippie na tua ilha (Itaparica). Pelo menos até o Carnaval chegar (as chuvas). Te protege o Lalinho (dono da casinha e da venda, paguei três meses, com a pequena grana da saída do jornal O Globo, no Rio, e depois me deixou na boa por quase dois anos, vai ficando, seu Bocage (Mamcasz no baianês), e eu, ele era um santo, ele quem, o Bocage).

Polaco. Olhe nos meus olhos. Sou a irmã Dulce. Preste atenção. Ainda não estás no ponto para voltar a cuidar dos outros. Cuide antes de ti. Segundo mandamento divino. Amar ao próximo “como” a ti mesmo. E por causa de que estás amando “menos” a ti? Pois me escute. Volte para tua ilha. Depois, irás para outra. Bras-ilha.

– Eu???


– Me escute!!! Lá, apertarás a mão de um papa polaco que será santo e de presidente que será preso. Agora, volte para a tua ilha, em Berlinque, mas cuidado. Sei que estás fumando a maconha maranhense amorenando amarrotada no assoalho da casa vizinha.

– Eu???

– Polaco!!! Nada demais. Mas tens outra virtude. Gostas de uma moreninha. Da ilha ou da capital. Rica ou pobre. Aconselho-te. Ao aparecer na tua ilha uma moreninha da capital, pois sei que aparece, geralmente filha de algum coronelzinho, ela não mais virgem pois sei que tu, no caso, por isso recusarias, mesmo assim, preste atenção. Não te esqueças. Semana que vem, lá na tua ilha, vão chegar duas moreninhas de Salvador. Vão te apoquentar. Fique na tua. Mais ainda. De manhã, esconda a tua maconha numa lata grande e esconda num buraco debaixo do pé de fruta-pão.

– Preste atenção, polaco!!!

– No que???

É para a tua salvação. Aguardes tranquilo, naquele canto da praia, no Pontal do My Friend, pelado, que nem ficas sempre, a chegada dos homens da Polícia Federal, procurando pelas meninas e, neste caso, pela maconha maranhense que dizem ser tua, mas não é, que eu sei muito bem. Agora, ide. Antes, pede a bença.”

– Prá quê e prá quem, minha doce irmã?

– Ide, polaco, que tens uma larga jornada pela frente.

– Vou.

– Vá!!!

Final:

Né que fui, dois dias depois, em Berlinque, como me alertou a irmã Dulce, a Polícia Federal chegou, logo depois da chegada das duas moreninhas da Capital, filhas de um político ligado às caridosas obras da irmã Dulce.

– Cadê as minas, polaco?

– Não sou chegado.

– Maconha, então?

– Nem pensar.

– E o calção?

– Escondi ali, debaixo do pé de fruta-pão.

– Qual deles?

– Ih…esqueci.

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Até hoje sou grato à agora minha santa irmã Dulce. E foi do jeitinho que ela falou. Veio o Carnaval, vieram as chuvas, fui para Brasília, voltei a ser jornalista federal, apertei a mão do papa polaco Carol Woityla, hoje santo, que nem ela, e também apertei a mão de presidente republicano agora se recusando a sair da cadeia.

Irmã Dulce. Uma santa de verdade. Só tem uma coisa.

– Que é, polaco, não chega?

– Precisava tanto político safado na tua consagração agora em Roma?

– Pede a benção!!!

– Prá que???

– Fale certo!!!

– Prá quem???

– Prá mim.

– Tá. A bênção, minha santa irmã Dulce.

– Tá!!!

– O que???

– Abençoado.

– Amém.

dulcesanfona

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Another sunday at Brasilia with in a sunny day.

(Para ser curtido ao som de milongas de Renato Borgheti)

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O título em cima é por causa da rima redundante. Falo do outro, que deveria ter sido. Another Sunday at Brasilia with in a sunny day. Sun-day. Dia do Deus Supremo, o Sol. Vertido para Domus-in-go, Dia do Senhor, Domus, Dom Polaco que vos escreve a respeito de um brilhante caminho do que se torna, no almoço de hoje tardio, um Arroz Carreteiro a la mode do Sul do Brasil.

Antes de passar para os ingredientes e, quiçá a receita dominical, atenho-me ao charque, da banda dianteira, não ressecado mas jamais fresco. Por falar nele, o charque, das bandas do Sul, foi exportado, por meio dos Navios-Ita, que faziam a cabotagem ao longo da costa, exportado para onde?

A Carne-Seca, Jabá, Carne-de-Sol, que se canta em verso e canto Gonzaguianos, na verdade é uma invenção sulista, dos pampas e campos gerais, companhia feminina do peão ao conduzir as boiadas, com tradicionais paradas em Ponta Grossa. Ponta é rebanho e Grossa, bom, é evidente, né?

A mesma coisa, antes de partirmos para os ingredientes (melhor olhar os detalhes da foto, antes). Lembro aqui, nascido em Ponta Grossa, embora polaco-bahiano, que o mesmo acontece com o mate, sempre quente e amargo, legítima invenção dos polacos do Paraná, usurpado pelos gáuchos.

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1 – Charque dianteiro dessalgado à noite, à geladeira, em água profunda, e dele tirados os fiapos de nervos ou pseudo-gorduras, além de cortados em cubos de tamanho interessante aos olhos e à necessidade do peão boiadeiro não ter que usar faca ou garfo, só a mão na farinha de mandioca.

2 –  Arroz, por supuesto, tanto que o manjar tem como substantivo o próprio, casado com o charque, antes tem um caminho que passo a mostrar, tão logo o cereal esteja muito bem lavado, escorrido e secado para que continue assim, livre, leve e solto até a fase pré-endereçamento interno.

3 –  Pinhão cozido e cortado de comprido porque de lado não é coisa de polaco e de cubinho só o charque curtido na Princesa dos Campos Gerais, a capital cívica  do Paraná, este o apelido de Ponta Grossa, terra originária deste escriba polaco-bahiano, tanto que batizado na Igreja e logo depois no Olho d’Água, salve-salve minha mãe Iara-Iemanjá.

“Pinheiro, me dá uma pinha;

Pinha, me dá um pinhão.

Polaco,  me dá um pedaço,

Que te dou me coração.”

(Rima entendível somente pelos iniciados nos pinhais).

4 – Tomate. Aqui, há discrepâncias. Aconselha-se cortá-lo em cubos, do mesmo tamanho dos do charque, e só colocá-lo ao quase final, antes do cheiro verde, tem que ser cebolinha e salsinha e mais nadinha, tá? A cebola e o alho já entraram na fase pós inicial, depois de fritados os cubos de charque ao azeite, ou seja, pego aquele bronze da chama eterna das fogueiras das paixões passageiras.

– Florzinha!  Me traga uma cerveja. Larga esta tua turma. Hoje é domingo. Você é todo meu.

Vou e volto porque Madame hoje está compenetrada no começo da leitura de um livro com 1.077 páginas, chamado HITLER, do Ian Kershaw, o mais completo de todos, primo capítulo se chama Fantasias e Fracassos, comento que não haverá profícuo diálogo aqui em casa por um bom tempo, não sem antes apresentar no copo especial, cristal fino, a cerveja Quilmes, litrão, vindo de Buenos Aires, para onde estamos indo na primavera. E a receita de Arroz à Carreteiro continua.

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5 – Apresentada a cerveja, entra a parte destinada ao polaco-bahiano, na forma da vodka, de boa qualidade, e o limão adrede, subido do açúcar e do gelo fica faltando apenas o agito, dá um tempo que já volto, aliás, hoje, no mercado, comprando o cheiro-verde, passei três minutos me enamorando de um vidrinho de azeite de dendê, que não tem nada a ver com a prosa aqui, mas faz parte do meu eu dos tempos de Berlinque, município de Cacha-Pregos, Ilha de Itaparica, onde fui cidadão nada exemplar.

6 – Último olhar para a foto dos ingredientes, acima, ou para a panela já preparada, com azeite, lusitano,, não baiano, e cubinhos, os terceiros desta receita, de beicon. Olhou? E daí? Percebeu outra interferfência baiana na receita de Arroz à Carreteira do polaco aqui? É o pequeno tipo cálice de porcelana holandesa, nela repousando pimenta dedo de moça, cortada em rodelas finas, mas nunca macerada, em leito de azeite, tem que ser virgem.

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– Florzinha!

Madame levanta os olhos do livro, atenta como sempre e aguarda.

– Posso chamar algumas pessoas queridas para compartilhar este sunny day com a gente?

– Nem pensar!!!

– Pô, Madame, desculpe, Florzinha. Por que?

E ela, firme e serena, forte e amena:

– PORQUE HOJE EU QUERO VOCÊ, POLACO, TODINHO PARA MIM.

 


Sábado na matina, sol lindo cá na ilha, fantasio o torresmo com a branquinha, cadê o caldinho, mulata Luanda?

– Polaquinho, minha florzinha. Hora de acordar.  Ir prá rua. Trotar. Emagrecer. Já!!! A não ser que você queira que eu vá, eu mais este corpicho, sem você para Praga em maio. Vá!!!

Madame by Mamcasz

Na prima volta ao redor das duas quadras ditas super, tudo bem. Por ora, aqueço o joelho direito, na hora da pontada do esporão do calcanho esquerdo. Daí, esqueço o aqueço, a cabeça  a rodar, pensamentos nunca sanos. Diminuo o passo. À frente, a jovem manceba. Bom jingado. Ritmo bem ancado. Apesar do colega, também aborrescente, no papo desestruturado. E ela prá ele e eu ali:

– Pois noutro dia eu fui no médico e ele disse que eu estou com alto estrésse.

E eu, sem querer, incontido polaco, replico, em voz alta:

– Auto com  u ou alto com éle?

O futuro pretenso, duvido, não leva jeito, casal de pombinhos, se vira e …

– É alto estrésse com éle, polaco intruso, e você tem o quê com isso?

E vieram para cima de mim, suado, amuado, polaco, ainda bem que, agora, por ora, aquecido o suficiente para apertar o passo. E a manceba, agora atrás de mim:

– Polaco, mostra aqui pro meu rápa capoeira a diferença entre éle e u.

Daí… polaco esquecido, ainda bem que aquecido, do passo  ultrapasso para o trote.

Na subida da entrequadra, diminuo o trote, o casal  pré-estressado distanciado,  escuto o grito advindo do bar do Carioca, que não se chama Manoel, mas Zé, de Zeferino:

– Polaco. Tá correndo da Madame, é? Mariquinha. Se fosse macho vinha aqui pruma branquinha e o torresminho da Luanda.

Em defesa da lídima honra polaquiana, máscula por natureza, aparentemente não mais persequido nem por madame e muito menos pelo capoeirista,  sôfregoeu me desvio  para o lado dos coleguinhas jornalistas, ô subrraça, é assim mesmo que se escreve?

– Sei lá, polaco, sou teu copidésqui por acaso? Bebe a segunda, vai.

– Manda outra. Mais uma pro santo. Péra aí. Tá telefonando prá quem?

– … Madame?

Saio na corrida outra vez. Preciso de um novo suor urgente. Esta modernidade de telefone com imagem instantânea, em movimento, me deixa sempre puto da vida. Sou mais eu na fila do orelhão:

– E aí, morena, vai ligar pro cachorro, vai? Precisando de ficha? Qualquer coisa, é só dizer…

Moral do Lero

Os putos dos coleguinhas jornalistas do bar do Carioca perdem feio a sacanagem que aprontam comigo. Chego em casa, esbaforido, lanhado mas, o mais importante, suado de montão. Madame me recebe:

– Polaquinho. Olha só o que teus amigos pinguços me mandaram.

E eu, todo cabreiro, auto-estressado, com u, porque controlo pelo interesse do momento – que foi?

– Que bunitinho você correndo. Acima do que eu tinha mandado. Era só para trotar. Que gracinha.

Abro aquele riso enorme, mas silencioso, a tempo de ouvir um senão que Madame sempre tem:

– Agora vai tomar banho porque este teu suor está fedendo a cachaça da semana passada. Vai que eu estou, Madame nunca fala “tô”,  preparando uma salada verde.

Aparentando felicidade tamanha, debaixo do chuveiro, ruminando fictícia grama, acho gana para cantar:

– Eu não sou cachorro nãooooooooooooooo…….

homem-by-mamcasz


No bloco do eu caladinho, saio na manhã deste domingo para caminhar no Eixão.

Ó néscia pessoa das coisas cá da Ilha, Brasília. Eixão são as sete pistas de asfalto puro que cortam o Plano, de Sul a Norte, por 15 quilômetos. Mas voltando ao meu desértico carnaval a pé no eixão.

– E não me interrompa mais, viste?

Pois então. Aos vinte minutos de caminhada, o pensamento começa a voar que é coisa boa. Daí, passo por uma bonitona e eu rio da cadela. Dela, claro, a potranca, sorry feministas. A cadelinha se mijando de medo de um isopor com os copos de água a um real e o negão sentado ao lado, mudo de todo, eu diria puto da vida.

Daí, já no pensamento solto, libero  à viva voz:

– Você devia arrumar é um cachorrão que nem eu no lugar desta cadelinha tremeliquenta.

– Boa, polaco, gostei, mas por acaso você sabe latir bonitinho assim que nem ela?

– ???

– Vai, late ai para ver se a vale a pena a gente topar uma troca.

Moral 1:

E não é que o polaco aqui latiu? De verdade. Juro pela Graciosa.

Pior foi a reação:

– Isso lá é latido que se preze, polaco? Continue treinando que domingo que vem pode ser que pinte alguma troca. Melhor ainda, se você aprender a latir de verdade, eu dou sem pedir nada em troca.

Explicação: o eixão  fica aberto para os pedestres só nos domingos. Ou feriados … não tem nada a praticar somente uma vez por semana, não.

Moral 2:

Descartei o pedaço de mau caminho, lati feio para a cadela que respondeu muito da convencida, e saí do eixão para as calçadas da entrequadra, na volta para a parte sul que me cabe nesta  ilha.

– Au… Au… Ai…  continuo treinando meu novo latido. E passo pelo mendicante, saco preto dependurado, um lixo, mais o  pedaço de osso a la microfone:

– Então, você quer que eu responda? Pois digo o seguinte. Se uma pessoa é presa, mesmo sem ter feito nada, respondo que ela tem mais é que continuar presa.

– Au… Au… Au…

– Espera aí, dona Bia, deixa eu passar o microfone para um polaco maluco que está passando por mim latindo, quer dizer, tentando latir que nem um cachorro de madame bonita.

– Pergunta o nome dele e diz que está participando aqui do Bia Talk Show, na Rádio SBM, ao vivo.

– Deixa que eu mesmo respondo que ele acaba de levar um fora de uma bonitona ali no eixão. Acontece que este  polaco late mais feio do que a cadela.

– Como é que é? Deixa eu falar com ele.

– Nem pensar, dona Bia, o horário é meu, tá vindo o intervalo comercial, que eu sei, e não tem nada de polaco roubar meu espaço neste tão popular  Talk Show.

– Xô cachorro!  polaco vira-lata!  ladrão de microfone!

É o que eu continuo a ouvir, cada vez mais distante,  enquanto corro em direção ao pedaço de osso  que o mendicante jogou para bem longe. Dele e do Bia Talk Show. Me desculpe mas agora não possa falar mais nada.

Acabo de pegar o osso. Não largo mais. Sou o maior petelho da paróquia.

Saiba mais:

https://mamcasz.wordpress.com/2009/11/20/setenta-por-cento-dos-mendigos-sao-negros/