Shikata ga nai (japonês) = Das ist nichts zu machen (alemão) = 

Não vejo, não escuto e nem cheiro merda nenhuma (brasileiro).

É que na semana, na produtora de imagens onde obro, a colega Maria primeiro se desfaz dos CDS. Coloca-os na mesa comum dos mortais. Pego o de Edith Piaf. Depois, ela traz os livros, mudando que está para uma atitude, digamos, mais roqueira, junto com João,  José  e seus Chorumes.

Qual mendicante descido para a classe C, decido-me por  “Hiroshima”, de John Hersey, um dos maiores jornalistas culturais, mas bota factuais nisto, do século XX.

Assim  começa a perda de apetite para o caminhar dominical deste começo de outono na parte sul cá da Ilha da Fantasia, Brasília.

Hiroshima. Maior crime contra a Humanidade. O presidente dos Estados Unidos é fuzilado no Tribunal de Nuremberg? Necas… o piloto do Enola Gay é condenado àao mesmo fogo dos infernos? Nadica… Dormem soltos. Resultado: Vietnames, Iraques, Guantânamos e muito mais.

“No dia 6 de agosto de 1945m precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explode sobre Hiroshima…”, assim começa o livro de John Hersey, traduzido para o brasileiro. O calor de 6.000 graus centígrados derrete mais de cem mil pessoas e deixa outro tanto aleijadas, despeladas, cancerizadas.

E o pior. Na reconstrução, o Comando Militar Norte-Americano censura qualquer tipo de notícias, no Japão e, principalmente em terras ianques, para não manchar a imagem do Tio Sam Libertador do Mundo.

Mais pior ainda. O governo japonês do imperador colocado de quatro marginaliza os atingidos pela radiação nuclear que atestam a infelicidade de conturbarem os vivos, não-atingidos e abraçados ao inimigo.

– E eu com isto – ouço alguém na resposta ao meu caminhar dominical interrompido.

– Tudo e mais um pouco, pois leia com atenção o final da prosa de hoje:

Shikata ga nai, ou seja, fazer o que, não tem jeito, é isso aí, Das ist nichts zu machen, não tem nada a ser feito.  Esta é a estóica e oriental reação dos desmiolados pela bomba atômica jogada criminalmente pelos americanos em cima da cidade de Hiroshima, no final da Segunda Guerra Mundial.

Concluo, puto por ter perdido minha caminhada dominical:

– Mas não é esta a reação que eu vejo, todos os dias, ao meu lado, nos ditos bípedes eternamente de quatro? Nichevo, diz o russo. Não vejo, não ouço, não cheiro merda nenhuma.

Moral de Merda

No lugar da caminhada, neste domingo de manhã, pego um ônibus, cá na Asa Sul, direção ao Entorno, pós Satélite, com o livro “Hiroshima”, de Johan Hersey, no sovaco endireitado, e sigo o caminho inverso iniciado por Maria com o livro porrada na minha mente e no meu coração. Puxo a campainha e apeio numa estação do metrô, com quem volto.

Tomara que nesta hora o escrito esteja entrando na mente  de uma passageira pessoa. Que leva na cabeça, sem reagir, a cada dia, toda hora, uma porção de partícula atômica, sem nunca reagir, o mínimo que fora, eita Povinho, escuta, Zé Ninguém, ah, este novo livro eu libero domingo que vem, primeiro de abril, por isso adianto logo o papo amargo do Wilhelm Reich. Fala Guilherme:

“Vem comigo, Zé Ninguém.   Não fujas.  Não sou ditador,  embora, quisesse eu sê-lo, a tarefa teria sido fácil perante a tua mediocridade. Bom. Eu tenho as bombas atômicas, e uma só delas pode matar centenas de milhares de pessoas. Parece-me que ainda não entendeste bem, Zé Ninguém. Julgas que são os príncipes e generais que fabricam essas bombas? Não, são homens como tu que as constroem berrando “Viva!”, em vez de se recusarem a fazê-lo.

 Porra, meu, clique logo abaixo e leia o esporro completo, tá, Zé Ninguém!!!           

http://www.culturabrasil.org/zip/zeninguem.pdf

Anúncios