maio 2010



O bar Catsoul, escondido numa ruela escura do Kreuzberg, antigo reduto dos maluquetes do lado capitalista, atraiu a gente desde a primeira vez.

Até porque quase na porta passa o Bus 29, dois andares, que leva a gente de volta para casa, até duas e meia da manhã, do outro lado da cidade, na Wilmesdorf.

Num dos shows, pequeno, quase que de improviso, chope a dois euros, teve este trio ótimo.

É o Shower Singers com o show Singalong Country.

Até batemos um ótimo papo, em inglês:

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Esta vai para meu sobrinho que está acompanhando este relato e que está para ser pai para depois começar a viajar pelo mundo porque tudo é possível, tudo no seu devido tempo. Um abraço pra família:


Tem uma porção de shows de graça aqui nesta época em Berlim.

É só prestar atenção na bolinha verde na revista Tip Berlin.

Pois fui num deles, no Café Tasso, que  me lembrei do amigo Flavinho, que não se encontrou comigo aqui em Berlim porque foi para Barcelona e depois para Paris.

O café, na verdade,  é uma velha livraria dos tempos dos comunistas e fica na maior avenida da época dos invasores vermelhos, junto ao metrô Frankfurt Tor, na Karl Marx Alee (o velho).

Tem livros ótimos a um euro, móveis superantigos, alguns já desbotados pelo tempo, e o atendimento bem do leste, como se diz aqui, ou seja, o comunistão controlando o caixa, o ex-assessor da Stasi ajudando a controlar e um serviçal, no caso, um argentino que sofreu lavagem cerebral, no papel de controlado.

E o pior é que no dia em que estarei embarcando de volta estarão fazendo uma homenagem ao grande Tom Waits:

 


Finalmente chegou o show que só por ele teria valido a pena a vinda a Berlin. Rufus Wainwright.

Nome do espetáculo intimista no velho teatro Volksbühne, no Mitte, ex-lado comunista, ao lado do metrô Rosa de Luxembourg:

All Days Are Nights: Songs for Lulu.

Na primeira parte, a pedido dele, não teve qualquer aplauso nem foto.

Ele entrou num longo vestido preto, tipo Julieta, foi ao piano, uma luz nele e na tela um olho pintado de preto que ia abrindo e fechando, abrindo e fechando … a sobrancelha negra que parecia uma aranha.

E nas músicas, amigo Daniel, ele cantou a nova sinfonia dele, tudo em cima de poemas de Shakespeare.

Ah … sem falar na exposição da Frida Kahlo e do barzão tipo Beirola na noite só de música, ao vivo, lembrando Bob Dylan:


Antes de embarcar  para Berlim, fui pedir a benção da minha velha avó polaca. Desbocada como sempre, babucha só me fez um alerta:

– Édio, cuidado com o que você vai botar na boca.

Neto obediente, em Berlim chegado  me instalei, rapidinho, no Hostel X-berg. Fica na fronteira entre dois bairros inzoneiros: Kreuzberg e Neukoln. O maior barato:

Penso  na minha velha avó polaca de Ponta Grossa, Paraná, Brasil –  Édio, primeiro coloque um chazinho na boca. Peço o conselho do Andreas, colega de baixo no beliche.  E corro direto para o barzinho indicado por ele:

Agora, sim, não estou sentindo nada e posso começar de verdade esta minha viagem pelo underground de Berlim. Se quiser, tu podes me acompanhar. Sem colar na mala, meu. Desgruda,  senão a ponte balança:

Espera aí que depois eu continuo o papo porque agora vou dar um chega nesta  fraulenzinha de vermelho aqui na minha frente. Não posso acabar sozinho nesta minha primeira noite aqui em Berlim.   Florzinha!!!

É. Ela se foi. Tem nada não. Enfrento o túnel sozinho, quer dizer, conto com a tua mala companhia. Era aqui a troca dos espiões capitalistas pelos comunistas. E vice e versa. Oberbaumbrucke:

Pô, estou doido para sair deste underground e achar um barzinho onde molhar a boca que fica do outro lado. Onde mesmo? Será que eu trouxe o endereço?  Ah, esta saliva seca travando minha garganta:

Continua o  sufoco  nesta minha boca. Ainda bem que a minha velha avó polaca me deu um só conselho. Qual foi? Esqueci na primeira meia hora. Tu estás lembrado?  Vamos sentar, conversar e fumar um pouco:

 

Aqui neste banco, sinto assim alguma coisa  na cabeça, meio que zoando. É  tipo Bossa Nova, João Gilberto, sentado ao meu lado, em Berlim. A gente sussurrando:

– Ai … que saudades  …  eu tenho  da Bahia … bem  … que minha avó dizia:

Bom, gente.  Agora estou  em condição de entrar no barzinho indicado pelo meu colega de baixo no beliche do hostel aqui em Berlin. É que voltei a não sentir nada outra vez. Então, vamos juntos nesta:

Se aqui do lado de fora está assim, imagina lá dentro. Só tem uma coisa. Eu não tenho mais certeza de nada. Não sei se estou entrando no Magnet, no Arena ou no Soulcat. E faz alguma diferença, minha avó?

Continuo sem sentir, quer dizer, sem entender mais nada. Sacanagem do Andreas, o colega de baixo no hosteL. Ele me garantiu que aqui era o maior agito. Tudo live na life da vida. Heil !!! Som na caixa:

Ih … agora estou sentindo tudo outra vez.  O que é mesmo que eu estava contando?  Quem és tu  aqui ao meu lado escutando minha conversa? Ah, me lembrei. Tu és a minha velha avó polaca. A bença:

Só me lembro, agora,  que acordei ao lado desta gatona berlinense cantando com aquele bocão grudado aqui no meu ouvido polaco de boca fechada:

– I got you …  baby!!!  Got you … baby!!   G ot …

Foi o tempo de pular do chão, vestir a roupa do lado (parece que peguei, trocado, algo dela), sair para debaixo da ponte, pegar o táxi, que depois descobri ser um carro da polícia, e mostrar ao distinto motorista este cartão que eu achava que era o endereço do meu hostel:

Então, auviederzen, minha avó. Shus. Continuo de boca fechada. Não falei nada    nem pro advogado que o seguro de viagem me mandou. Florzinha, nestas alturas da viagem, já se mandou. E digo eu: inté e axé.


Tô aqui em Berlim vendo o polaco do primeiro ministro da Inglaterra caindo.

Aqui na Alemanha, a Ângela Merkel, ex-moradora do leste comunista, perdeu a maioria na eleição deste domingo.

Tudo porque se meteu a ajudar os gregos.

Daí, saiu o pacotão de um trilhão de dólares, ou 720 bilhóes de euros, ou dois trilhões e meio de pobres reais.

Tudo para fazer um fundo para socorrer os malandros dos gregos e os portugas e os espanhóis que estavam indo pro buraco e ameaçando levar junto a zona do euro.

Daí, saí de casa, aqui na Parisier com a Uhlanda, Berlin, para o pegar o metrô na Spichiestrasse, e vejo a seguinte cena emoldurada na parede do prédio do Banco de Investimentos da Alemanha:

Inté:


Esta vai pro meu amigo Daniel, em Brasília, que estaria em casa, aqui em Berlin, se morando em Kreuzberg-Prezlauerberg-Friedchihaim-Newkohln, que tudo parece com a turma de Santa Teresa, no Rio.

É que ele babou porque no dia 18 vou ver/ouvir Rufus cantando Cohen. Quem sabe, baba mesmo…

E o melhor. Entritt frei com a kart de press:

Então, pra matar, Daniel, acabo de sair uma exposição completa (fotos, pinturas, objetos, áudios) pelos cem anos da grande FRIDA KAHLO.

Aí, foi demais. Ainda estou digerindo. Com uma Berliner Kindl (cerveja) ao lado, aqui no apartamento alugado na Uhlandastrasse.

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