No meu engatinhar de Jornalismo dantanho, no Rio, no Globo, havia um neguinho gente fina. Tim Lopes. A gente começou junto, dividia a mesma casa e a mesma geladeira, numa casa em Santa Teresa, no final de uma escadaria enorme que dava, na descida, na ACM, Sala Cecília Meireles, Passeio Público e o Rio aos nossos pés.

 Tempos passados, entro num avião, em Paris, a caminho de Brasília, o jornal tupiniquim do do dia anterior na poltrona e nele a porrada no meio do meu estômago: Meu amigo repórter Tim Lopes tinha sido queimado vivo dentro de um pneu lá no morro.

Mais um tempo passado e imagina minha alegria insana quando eu recebi o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo.

Praticamente sexagenário, profissão repórter, fiz o trecho Manaus-Venezuela como ajudante de caminhão, à procura do ainda existente contrabando de meninas e meninos do Brasil para serem cidadãos prostitutos na Europa.

Desta vez, devolvi o murro do estômago do meu eterno amigo repórter Tim Lopes. Toma, Tim. Vou dar a linha à pipa porque o vento está a favor.

Nos meus tempos de estagiário , Rio de Janeiro, morava em Santa Teresa e dividia a casa, e tudo que nela entrasse, com um amigo na mesma condição de iniciante na vida adulta.

Á noite, descíamos juntos até à Gafieira Elite, na Praça da República. Sol claro, ele se fazia operário na construção do metrô, Estação Largo da Carioca. Sua pele escura ajudava.

Então, eu passava por ele, minha pele clara realçando o jornalista do Globo, nosso começo. Ele me olhava, segurando a marreta, no lugar da caneta, esta manobrava muito melhor. Fingíamos um não conhecer o outro.

Em casa, no dividir as frutas da feira , ele chiava : – Pô, polaco – era assim que me chamava . – Que foi? – Não precisava me esnobar parecendo de verdade…

Há um ano, o corpo deste meu querido amigo foi colocado dentro de um pneu. Foi detonado . Queimado. Dos ossos , nem o pó . Do sorriso , que encantava as amigas ( maior trabalho desviá-las, não à toa o conselho: – Polaco, antes de tudo, a gentileza… é disto que elas precisam.) pois é … do sorriso desse meu querido amigo, só lágrimas – quiçá gritos – de dentro de um madito pneu onde foi queimado – quem sabe – vivo.

Em sua memória, amigo Tim Lopes, vou dar linha à pipa e que o vento continue a soprar a nosso favor. Até faço uma greve nesta minha rude e polaca imagem. Um beijo no seu coração. Do mano MAMCASZ – saltando no Tempo.

– Larga o microfone, Polaco !

 – É todo seu, Tim Lopes !

http://www.timlopes.com.br/edatlhetim.htm

https://mamcasz.wordpress.com/mortos/


                      Ontem, recebo o elogio reservado da minha chefinha carola.  Ela  agradece minha “atenção, disponibilidade e comprometimento com a Rádio Nacional e os ouvintes .”
                      Hoje, trago (???) o Cd duplo de Raul Seixas no sovaco e falo (???) que penso nela ao ouvir este trecho:

                      Caí na tua teia, serei a tua ceia …

                     – Ah Mamcasz, deixa  eu ouvir, deixa …

                    A letra é de Panaróia (não consigo falar Paranóia – esta é uma). Acontece que me distraio na hora e dou pra ela ouvir  o Cambaleche:

   O que não chora não mama,
Quem não rouba é um imbecil,
Já não dá mais. Força que dá
Que lá no inferno  vamos nos encontrar.


                        Depois de uns tempos, volta minha chefinha carola e me devolve o CD:

                       – Mamcasz, o mundo é bom. As  pessoas é que estragam ele:

Photo Mamcasz by Mamcasz

                     Na mesma hora eu sinto meu mijo fora do centro da meta. 

                    Mas me consolo porque, no fundo, no fundo, minha chefinha Carola tem mais é que escutar o Metrô Linha 743:

Um gritou:
Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos.

Eu disse:
Claro, pois não, mas o que é que eu fiz? Se é documento eu tenho aqui…

Outro disse:
Não interessa, pouco importa, fique aí! Eu quero saber o que você estava pensando…

                       Moral: 
                       Mesmo com a pérola jogada pra porca, na saída o estagiário Manero me vê com o Raul Seixas e  conta que adora ele e conversamos e chegamos à conclusão que Deus é mesmo um puto por ter levado ele e deixado o Paulo Coelho no lugar. E discutimos quem é o melhor: Cazuza, pra mim,  Renato Russo, pra ele.
                      Quando chego em casa, no elevador entra a vizinha Atéia, do segundo andar – minha fêmea ainda continua sumida em Paris – e ela me vê com o Raul Seixas, então ela me agarra e me abraça e me beija e me arrasta pra beber todas as letras até porque ela é professora e me mostra deveras que tem tudo na ponta da língua:

http://vagalume.uol.com.br/raul-seixas/metro-linha-743.html