Hoje, eu passei pelo inferno,  das 14 às 18 horas.

Clínica de olhos na parte dita nobre. Brasilha. Chique. Apenas revisão. Resultado. Estou pronto para levar gás pimenta de novo.

Agora, meu, vou te contar. Plano de Saúde classe A. Reajuste anual de 30%. Mais de uma milha por mês. Corporativo.

Chego lá. Ambiente down. Japoneses tomaram a Clínica. Despediram 60%. No lugar, contrataram 40% ganhando menos, na média, 50% dos 60% largados.

Me acompanhe.

Guichê de entrada. Pela metade. Nele, 70% de aprendizes. 30% ensinando, antes de serem sucateados. Rola um tempão. Eu, na boa.

Espero pelo médico-oculista-especialista-amigo.

45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Onde assino.

-Tá vendo o que, polaco.

– Tudo uma merda só, meu.

– Tô falando das letrinhas.

– A.S.D.F.G.

– Muito bom. Mas já que você trocou os dois cristalinos e teve uma costura a laser no olho esquerdo, faz tempo, deixa eu ver aqui, vamos fazer alguns exames.

E eu pro médico amigo:

– E no olho do teu cu não vai nada.

E ele:

– Vai, polaco.  Faz logo esta merda destes três exames, todos caros, ponto para mim, senão eu perco o meu emprego.

Volto pro guichê de entrada. Repetindo. Pela metade. Nele, 70% de aprendizes. 30% ensinando, antes de serem sucateados. Identidade. Carteira do Plano. Aguarde. Sento. Levanto. Leio Leminski. Sento. 45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Onde assino.

– Aqui. Nas três folhas. Andar de cima, Cadeiras da frente. Aguarde chamar o teu nome.

Subo. De escada. Na boa. Sento. Leio Bukowsky. Levanto. Sento. 45 minutos depois.

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Vá tomar no cu.

– Meu senhor!

– Senhor, o cacete.

– Pisque. Abra bem o olho. Agora pisque o olho esquerdo. Vamos pingar um colírio. Pisque de novo. O esquerdo, não, o direito. Não tá bom. Mais um colírio.

– Mas eu nem fumei ainda.

– O que, meu senhor.

– Nada, nada, nada.

– Pisque de novo.

– Pisco o cacete, meu. Sou mais é uma caipirinha, agora mesmo.

– Agora, o senhor volte lá para o setor de colírio, para dilatar este teu olho gordo de polaco, e aguarde seu nome ser chamado.

Desço a escada de novo. Imagina se puto da vida ou alegre por não ser um pobre coitado do SUS com cara de médico cubano. E não me venha com a onda de racista que mando tomar no cu, porra.

45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Onde assino. Já estou de saco cheio.

Chego:

– Gatinha. Me mandaram para a dilatação, colírio no olho dos outros é refresco …

– Meu senhor. Aguarde sentado até seu nome ser chamado, serão três pingadas de colírio.

– Mas eu ainda nem fumei-.

– Como, meu senhor.

– Não se come. Traga!

45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Onde assino.

45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Onde assino.

E ela:

– Aguarde sentado.

Mais um pouco e juro que começo a pensar em ficar puto da vida. Não sei se este é o caso da pessoa bicuda que me vê.

Estou puto. Sento, levanto, sento, levanto, leio um trecho de Ferlingheti. Sento.

– Vamos lá. Levante a cabeça. Abra o olho. Agora o outro. Feche. Pisque. Já volto.

– Hei moça, esqueceu de mim.

– Terceira pingada. Agora – adivinhe, se é que ainda teve saco de me acompanhar no lance até aqui – aguarde até teu nome ser chamado para ser atendido pelo doutor.

– Doutor o cacete.

– Qué isso, meu senhor. Conheço ele. Só sabe pedir uma porrada de exame. E me chame aquele vendedor-representante de laboratório.

– Quem.

– Aquele ali.

– Hei, cara. É. Você mesmo. Me passe uns colírios de amostra grátis. Tô a fim de berimbar o maior baseado depois desta Via Sacra toda. Me passa logo, porra.

Passou. Sento. Levanto. Sento. Leio Cora Coralina. Quer dizer. Vislumbro. O olho esbugalhado. Dilatado. Não estou vendo mais nada, porra, cadê meu olho.

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

– Puta que pariu.

– Meu senhor. É apenas para informar que o doutor, teu amigo, que ainda não é cubano, diz que teve que subir para fazer uma operação e já desce.

– Puta que pariu.

– Meu senhor.

– Desculpe, gatinha.

Espero sentado, no caso, 45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

Onde assino.

45 minutos depois:

– Eduardo Mam….. Mam….

– Sou eu.

– Que nome esqusito é este. Como se fala.

E eu:

– Onde assino.

– O doutor disse para esperar aqui na sala dele, pode sentar na cadeira-leito, tá bom assim, quer uma água, relaxe.

Agora, dentro da sala do doutor oculista, gente fina, amigo de uma grande amiga aqui do Facebook e da firma. Não digo o nome para os dois não serem despedidos. Num, os japoneses chegaram. Noutro, os cubanos. E o polaco aqui, morrendo de fome. Cheguei às 14, sem almoçar, lance rápido. São mais das 16 e, porra. Mexo no computador do oculista, dentro da sala, ar frio da porra, demora pra cacete, e me vingo. Acabo de passar esta mensagem pros amigos do Facebook, direto do computador dele, quer dizer, da Clínica Chique de Olhos, Brasília, Área Nobre, Plano de Saúde dos Olhos da Cara.

– Porra, polaco, me desculpe a demora. Estes japoneses da porra me obrigam a atender três casos ao mesmo tempo. Este último tive que costurar o olho de uma velha a laser. Mas vamos aí. Pupila dilatada, hein, malandro. Vamos numa aqui, mas é pó, porque fumaça, já viu, né, os japas ficam malucos. Vamos, cara, mas antes olhe meu olho, tá.

– Por que você não enfia estea luz forte no teu cu.

– Porra, polaco, qualé. Abra o olho. Olhe para mim. Olhe pra direita. Pisque. Olhe para esquerda. Abra bem o olho.

– E o teu olho do cu, vai bem, doutor.

– Porra, polaco, é sério. Deixa eu ver os exames. Beleza, meu. Maravilha. Nem precisa trocar os óculos. Tudo em cima.

E termina a consulta, quatro horas depois da chegada, o doutor amigo, de uma Clínica de Olhos Chique, área nobre do Plano Piloto de Brasília, tudo por conta do Plano de Saúde Corporativo, 30% de reajuste anual.

Daí, o doutor pergunta:

– Mais alguma coisa polaco.

E eu:

– E no olho do teu cu não vai nada, não, porra.

Saio do consultório depois de uma rápida carreira. Olho esbugalhado. Dos colírios, meu. Madame, do lado de fora:

– Tudo bem com o olho do meu Florzinha, doutor.

– Qual deles.

Carrego eu e madame para casa. Sem almoçar. Cinco e tanto da tarde. Uma boa caipirinha para tirar o gosto da porra dos colírios e tudo. Ligo a televisão. Fim dos embargos dos mensaleiros. E escuto, olho esbugalhado, dilatado, garganta seca, o seguinte:

– O deputado federal José Genuíno acaba de entregar à Câmara dos Nobres o atestado médico, fornecido pelo Sistema Único Sírio-Libanês (SUS), requerendo aposentadoria por invalidez permanente, o que lhe assegura pensão vitalícia com o mesmo valor do atual provento.

Moral:

Escreva você mesmo, a seguir, o que eu gritei.

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Eu,  pecador, confesso que matei o negro que morreu no hospital de Brasília porque estava sem um talão de cheque e o plano de saúde dele,  o Geap,  dos funcionários públicos federais concursados, não estou falando dos apadrinhados, é uma bosta, mora?

Assinado: Doutor Polaco.

Senhor Juiz! Pare, agora. Jogo meus cabelos de outrora para o lado e acrescento, embora sejam provas que me condenam, mas não posso me calar. Cale, agora, senhor juiz, o cacete!

Semana passada, levei minha sogra, com emergência ortopédica, nos mesmos hospitais, em especial o Unimed de Brasília, onde, a velha gemendo, a atendende me resposta na cara, uma bosta:

– Hoje não tem ortopedista na emergência porque o médico acaba de ligar que não vai vir porra nenhuma porque acordou de ressaca, isto ela me conta depois de uns atracos porque a morena era boa para caralho que, infelizmente, não consegui lhe propiciar no banheiro, por ser tão fétido, e ela tão cheirosa, cara.

Estás rindo, pessoa leitora?

Pois então me arresponda, no ato, no fato, aqui no meu falo, sou o teu calo, fala!

– No caso da minha sogra, joguei a carteira de jornalista, chamo a Globo, o caceto, o caralho a quatro, veio a chefa do plantão, era feriado, nos levam até um médico gagá, atendeu, tudo bem, a sogrinha saiu sorrindo e cantanto “todo mundo tá feliz, ô, ô, ô”. O, o cacete, cambada, tô puto, e daí?

– Onde está a pergunta, polaco?

– Tá aqui, ó, perto do meu saco, nesta ponta obtusa e pronta para te obturar.

Volta a pergunta e termino a prosa:

– Eu matei o negro que morreu no hospital de Brasília, a Ilha, Capital da setxa economia do mundo, só porque não tinha um talão de cheques. Eu livrei minha sogra inventando que sou o Bozó da Globo.

– Pergunta logo, polaco da porra!

– Tá. Me arresponda, tu que está me ouvindo esta prosa. Vai me dizer que tu nunca apelou, numa emergência, para ser atendido? Só tem um negócio, tu, com certeza, não é preto. E completo:

– Fazendo isso, no hospital, na escola, no Detran, no caralho a quatro, tu  também não participou com os hospitais burgueses de Brasíia a assassinarem um preto (na corrida, ou na ética, não disse que era otoridade) só porque ele não tinha, na hora, um talão de cheque? E aí, posso ou não posso, aqui, falar um PUTA QUE OS PARIU?

Moral:

Com meus maiores respeitos e pêsames à família enlutada, clique abaixo:

http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/01/policia-abre-inquerito-para-apurar-suposta-negligencia-em-atendimento.html