Radio



 Como dizia aquele jovem senador por Brasília, amigo daquele jovem senador pelas Alagoas: Droga, tô fora. Falando nisso, tá chegando a hora de voltar praquela droga cheia de bostinhas. Mas antes vou visitar de novo a Rádio Nacional aqui da França. Trezentos e tantos estúdios, um para cada dialeto que se fale neste mundão. Tem até brasileiro:paris df 020


Tem cidades que me lembram o dia, o sol. O Rio. Fica feio de noite. Outras, nada. São Paulo. Algumas, o abstrato. Minha Brasília.  Ela é etérea. Cada cidade me reflete um símbolo anexado a ela. Sol é o Rio.  Lua é Paris,  a noite, a luz que reflete sombras nos invasores que repassam seu corpo, não desnudo de todo, e sua mente desbragada por completo. Então, Paris é a dama da noite. Não tem outra meretriz tão linda quanto ela. Com certeza. Testada e vexada. Tanto que resolvi ficar mais uns tempos por aqui, mesmo que tentado a voltar a meus fantasmas, que ainda são muitos, que nem os amigos e os inimigos, soltos por toda parte de minha mente insana:

Cartao Postal 2 Photo by Mamcasz A ópera opéra uma sinfonia de luzes tais que nem os sons das buzinas – todos, falsos. Assim é agora a Opera de Paris. Ela transmuda do vermelho para o verde para o amarelo para o azul até chegar ao amanhecer, quando ela dorme invadida por todas as não-luzes.Cartao Postal 1 Photo by Mamcasz O que mais me assombra num arco não é o que lhe volteia mas o que  por debaixo dele passa por igual, vencido ou vencedor, todos domados pelo Arco do Triunfo. Este, no final, é dele. Nem de Napoleão. Nem de Hitler.Arte em Paris 1 - photo by Mamcasz Disque M para Matar. M de Mar. Maresia. M de Montanha. M de menos. Que Mais? De Metropolitain? Cartao Postal 5 Photo by Mamcasz


 Estava eu hoje de manhã, 12 de outubro de 2009, a flanar por Paris, à procura, mas nem tanto, de minha mulher, que ainda não apareceu, quando eis que, de repente, a saudade bateu forte.Foi no lado de fora do Jardim de Luxemburgo, onde está o Senado, no lado de dentro.

A saudade não foi da florzinha sumida em Paris mas de Hanoi, Vietnam, onde estivemos há quatro anos, e tudo por conta de uma exposição de fotos, na grade trabalhada do Jardin du Luxemburg, sobre a vida na Indochine (Viet Nam, Laos, Cambodja, sul da China e Birmânia, atual Yanmar).

E a foto que bateu fundo foi esta abaixo, do pai dormindo ao lado de um filho, numa jangada lá do Mekong.

Junto, a poesia de arrepiar:

luxemburg vietnam photo by mamcasz

“Se um dia eu me transformar em lua nascente

Que tu sejas um arrozal, meu filho…

Se um dia eu me transformar numa planície

Que tu  sejas um pequeno animal, minha criança…

Se um dia eu me dissolver nas águas do rio

Que tu sejas a minha luz, meu querido…

Mas se um dia eu me transformar numa borboleta

Então, meu rebento, que tu te transformes em vento.”

 

luxemburg vietnam 1 photo by mamcaszluxemburg vietnam 3 photo by mamcasz
Isto me fez lembrar da minha florzinha, será que ela passou por aqui nesta rua de Paris?

Foi de quando ela estava dormindo e eu disse para ela:

Flor, quando tu dormes, me dá, sei lá, saudadades …

E mesmo que, no sonho, tu saias, agora, voando

Eu te acompanharei, no olhar,

Até teu chegar , feito criança, no depois das águas  do nosso Infinito:

luxemburg vietnam 2 photo by mamcasz


archance gospel 10 photo by mamcaszOlha só o email  trés simpatique que recebi de resposta do pessoal do Archange Gospel Coral que cantou na Eglise de la Madeleine, na jornada contra a Depressão na France, e a quem eu tinha mandado as fotos que eu tirei, e algumas estão postadas mais abaixo:archance gospel 6 photo by mamcasz

“Monsieur Mamcasz

Obrigado vossé !

Merci pour votre témoignage et la gentillesse de votre message. 

Toute la chorale Archange Gospel vous remercie pour vos superbes photos !!

On espère que vous aimez Paris ! Bonne fin de vacances et dites bonjour au Brésil pour nous !!

Peut-être un concert à Rio de Janeiro ? Pourquoi pas ?

 Muito beijos !”

 archance gospel 8 photo by mamcasz

Archange Gospel

Merci digo eu e agora deixa eu sair pelas ruas e jardins e brasseries e boulangeries e patisseries de Paris para ver se encontro minha mulher que  continua sumida. Está chegando a hora de voltar e, sei não, sem ela apelo até pro Monsieur Nicô, le president, e prometo até fazer uma campanha pro Brasil comprar os aviõezinhos deles. 

Quem quiser ouvir algumas músicas desse coral lindo dê um pulo no seguinte site:

http://archangegospel.fr/accueil.htm

Au revoir.


Arco do Triunfo 3 - photo by MamcaszPara não dizer que eu não falei de flores, quer dizer, de Paris, aí vão algumas fotos em torno do Arco do Triunfo, no começo da Avenida Champs Elisees. Por sinal, uma delas foi publicada hoje no jornal de Paris, o Le Figaro, pensando o que? Duvida? Clique aqui, ó:

http://www.lachainemeteo.com/votre-meteo/photo/communaute/l-arc-avant-la-tempete_paris-08_13520.php

Tem outras. Onde? Aqui, ó:

Arco do Triunfo 2 - photo by MamcaszArco do Triunfo em Paris 1 - photo by Mamcasz


                       Bom, gente.

                        Já estou instalado no apartamento, aqui em Paris, com internet e tudo. Dei uma saída rápida, comprei meu queijinho básico, o Camembet, mais o vinhozinho simples, o Beaujauolais, a baguete, que não passa de uma bisnaga, e umas moules para completar o jogo na varanda porque, depois do banho na banheira, vamos descansar que amanhã, de sábado 3 para domingo 4, a noite pega de vez, com a oitava Nuit Blanche de Paris, das sete da noite às sete da manhã, tudo de graça, linhas 14 e 11 do metrô funcionando sem parar, concertos em 75 igrejas, mesquitas e sinagogas. Aliás, é tanta coisa que vou tentar ficar só nisso, aguardo sugestões porque Paris está uma festa só, me desculpe o fantasma do Hemingway, que morou aqui perto, no 14 da Montparnasse, onde bebeu vinho até aprender a vomitar … palavras :

A festa de Paris - 2 - photo by Mamcasz                            1 – Mais cedo, lá  pelas oito da noite, vou até o mais longe, o Parque Butte Chaumont, na Beleville, reduto dos bobo’s, ex-yuppies, antigos hippies, porque vai ter uma porção de coisas, comomais de mil barcos de papel, com velas coloridas, no lago principal, mais um letreiro, na entrada, com poesias que vão mudando a noite toda.

                             2 – Depois, volto para a Grande Mesquita de Paris onde vai ter uma puta de uma instalação preparada por um cenógrafo, artista plástico e o músico John Cage, numa mistura visual, sonora e olfativa.

                              3 – Daí, passo na estação Arts e Metiers do Metrô onde vai ter música sur Le tapis roulant, a noite toda, a caminho da Catedral da Notre Dame, para ver e ouvir a instalação de mais de mil cristais coloridos e iluminados, ao som do órgão de 1.800 e lá vai porrada.

                             4 – Daí, de madrugada, indo para a manhã de domingo, vou voltar a pé para casa porque, no meio do caminho, tem o Jardim de Luxemburgo com outra porção de coisas, na frente do Senado.

                            5 – Ah. Não sei como vou arranjar tempo para passar no Colégio dos Bernardines, para ver e ouvir o espetáculo “Jerusalém, pierres de lumières, num mix de salmos cristãos, mandalas judias e preces muçulmanas.A festa de Paris - 1 - photo by Mamcasz                             E então? Tás vendo porque nesta semana eu não estou com tempo para ficar puto da vida com os Fantasmas da Rádio Nacional? Amanhã eu falo aqui da minha noitada em Paris. E me responda: se te mandassem para Paris, tu calarias a boca que nem eu?


                         Pois esta foi a última troca de emails entre os empregados que fizeram parte da Comissão que conseguiu colocar a diretoria na parede, com a greve do ano passado, e depois partir para o diálogo, nem sempre proveitoso de todo, mas respeitado pelas partes envolvidas.

                        Publico isto aqui, e agora, porque  não existe mais a ex-vitoriosa Comissão,  outra está escolhida, embora com menor participação, mas se o Rei está  morto,  então que viva a Rainha.

                

                   Trabalho sujo é expressão tão antiga quanto os seus 60 anos, Mamcasz. Mas, sobretudo, é trabalho. Larguei banana quente na Agência? Eu saí de lá porque mobilidade funcional existe, e se é meu direito, faço uso dela quando quiser e enquanto me permitirem. Mamcasz, se manca, vai! Você é o maior responsável pela situação que se criou em relação aos prejuízos aos mais velhos no pré-alinhamento. Só uma opinião minha: MEDO desse sindicato. E não vou sentir falta de porra de discussão nenhuma, Mamcasz. Assinado. Seu eterno inimigo, Morillo Carvalho.Vá à Merda.

Pra você, Mamcasz, eu mando isso:

                       http://www.youtube.com/watch?v=Iip4tDz786o


As novas estagiárias estão ficando velhas cada dia mais cedo

       “Entro na redação e vejo uma estagiária. Vocês, que não conhecem os subterrâneos de jornal, não imaginam como uma redação é povoada de seres misteriosíssimos. Procurem visualizar uma paisagem submarina. Há peixes azuis, escamas cintilantes, águas jamais sonhadas. De vez em quando, sai de uma caverna um monstro de movimentos lerdos, pacientes, etc. E passa um peixe sem olhos, que emana uma luz própria”.

muro de brasilia 15

             Meu velho  Nelson Rodrigues.
            Não sei se você se lembra de mim. Eu era aquele estagiário barbudo, meio hippie,  maconheiro, que  enchia o seu saco,  no jornal O Globo, no Rio – é, ainda estou vivo – e a quem você me respondia:
          – Polaco. Se você ficar pelado, aqui  e agora, nesta redação, você vira jornalista . Não precisa nem calçar sapato. Pode continuar vindo descalço.
         E eu:
        – Ô velho. Por que você não manda ali a  estagiária Regina ficar pelada?
       E ele:
     – Por que ela tem calcanhar sujo,  é estagiária, não pensa, não lê e, por isso,  não sabe escrever.
     Pois estou  escrevendo, num novo notebook, meu velho Nelson Rodrigues, para contar que hoje chegou uma leva nova de estagiárias aqui na Rádio Nacional. Nem todas são da PUC local, chamada de IESB, grana alta para passar de ano. O calcanhar delas não é mais sujo. Parece que continuam sem pensar porque me disseram que nunca leram um tal de Nelson Rodrigues. Mas tem uma coisa, meu velho fantasma de meu dias de estagiário, que faria você relinchar agora aí no seu túmulo.
     Eu tenho notado que as estagiárias de jornalismo de hoje em dia são diferentes daquelas do nosso tempo. As de hoje estão envelhecendo muito cedo. Bastam duas semanas de trabalho e se acomodam. Pois veja você que na última greve,  aqui na Rádio Nacional, ano passado, sabe justamente quem mais trabalhou? Foram as estagiárias, com medo de perder, porra, o emprego. As de hoje estão velhas, retrógradas, acomodadas antes mesmo de virarem jornalistas. Mesmo assim, eu insisto, e mostro a elas um conto seu, escrito em 1969, que fala daqueles tempos em que víamos estagiárias e, principalmente, redação,  como um ambiente ontem tão familiar, e por estar já sepultado,  hoje fantasma:
    Bom, meu velho, outro dia eu falo de quando recebi a notícia da sua morte, em dezembro de 1980. Estava eu num bar sujo em Cristalina, Goyaz, de olho nos peitos limpos da garçonete, eu tinha acabado de tomar um chá de cogumelos na Chácara dos Sonhos, pelado no rio Topazinho, quando escuto na Rádio Nacional, no fanhoso aparelho ligado, o seguinte:
   – Acaba de falecer o Anjo Pornográfico Nelson Rodrigues. 
     Na mesma hora, perdi o tesão na estagiária, quer dizer, na garçonete. Culpa sua, meu velho.
   Ah! Só para terminar. Indiquei para o bando de estagiárias novas, porque ainda estão na primeira semana, o link (sei que você não sabe o que é isso) com o seu conto completo sobre elas numa redação. Vamos esperar o retorno. Duvido que alguém vá lê-lo, meu velho.
  Assinado
  Do seu estagiário, Mamcasz, aquele que trabalhava descalço.
  Dê lembranças pro Tim. Ah, o link:
http://www.bemtv.org.br/portal/educomunicar/pdf/baratissima.pdf
 

Em Brasília também se morre – de tédio.

 

Podre Brasília - photo by Mamcasz

                Em Brasília, 19 horas. Hoje, sábado, dia 19 de setembro de 2009. Isto não  é propaganda do livro do Eugênio Bucci sobre os fantasmas escondidos nos armários de aço da Rádio Nacional. É mais uma morte. De uma vizinha aqui na 212 Sul. Pouco antes, tinha eu saído  à janela, com vista para o aeroporto desta fazenda chamada Brasilha. Do sexto andar, olhei as crianças pulando corda, brincando de 31 e subindo na árvore para catar manga. É.  Isto ainda existe aqui em Brasília, até porque fica um pouco  longe da parte mais perigosa da cidade, lá na Esplanada dos Podres Poderes.
               Então, tudo plácido, fui preparar minha caipirinha, conversei com meu primo, pelo computador, em Curitiba, sobre a grande menina Marina (mulher, negrinha, ex-analfabeta e futura presidente), com quem ele trabalhou lá no Acre, apesar de polaco.

               Como quem não quer nada, coçando o saco, sábado à noite, caldinho de feijão,  voltei à janela onde,  de repente, vejo um cenário totalmente diferente:

                 No lugar das crianças, um grupo de curiosos, entre eles o de capoeira, vestido de branco, que volta do ensaio, isto acontece todos os sábados, a esta hora.

                Em cima da calçada de pessoas, no lugar das crianças, está o camburão número 80140, da primeira delegacia de polícia civil do Distrito Federal. Ao lado dele, acaba de estacionar o rabecão número T 0138, de onde desce uma gatona, toda vestida de preto, calça arrebitada e revólver na cintura adocicada. Deu vontade de descer correndo, gravador na mão, olha, sou da Rádio Nacional mas vai que a morenaça me obrigasse a assoprar sei lá onde para testar o nível da minha presente sanidade.

               Prefiro o cômodo ao alcance da minha mão direita. Interfono para o porteiro:

             – Carlito, tem alguma coisa  acontecendo no prédio?
             – Não é nada não, seu Mamcasz. É que foi achada uma pessoa morta na entrada C, no apartamento do terceiro andar.
             – Ah… foi só isso?
             – Foi…
             – Então, tá… bom serviço. 
             Senti ainda o cheiro de uma peixada nova, ao leite de coco, vindo do vizinho do quinto andar, voltei para a minha caipirinha, e aqui, neste meu computador de última geração,  procurei pelo seguinte arquivo com um conto que eu fiz, faz uns tempos, sobre este prédio, cada apartamento  colocado como se fosse um dos sete anjos do Apocalipse. 

            Começa assim, ó:

             Diante de mim, aqui em Brasília,  mora um prédio. Está sendo terminado aos poucos.  A pintura no refazer. Desfazendo-se. Os fios multiplicados das antenas de TV escorrem  à solta. É caminho de esgoto nas casas  longínquas das diaristas . Gravo a exposição da individualidade das pessoas separadas em Quarto-e-Sala. São seis andares ao meu pensar, dispostos na altura máxima das  Quadras de Brasília. Ditas Super. Esconderijo de  gente acomodada ao fingimento à força. Concurseiros. São  sobreviventes. Sonhadores. Acham que aqui está o ouro do Centro-Oeste.    Eles arrulham, ralham e rolam, soltos,  no ralo do esgoto. Falham no canto santo.  No soprano, escuto eu o pranto deste

 POMBAL DE GENTE INACABADA

Pombal de Gente Inacabada - photo by Mamcasz

            Este meu conto, depois de descrever a vidinha besta de cada um dos vizinhos que eu acompanho, de longe, na surdina, ao binóculo, durante seis meses, aqui da minha janela, na 212 Sul de Brasília, lá pelas tantas termina que nem a pessoa encontrada morta, agora há pouco, no meu prédio, e de quem não tenho a menor idéia de quem seja, até porque se trata de mais uma entre as tantas rotativas personagens que se deslocam a Brasília pensando em vencer na vida.

            Quem sabe seja algum militar pois  este prédio era do EMFA, atual Ministério da Defesa, de que nós civis conseguimos ocupar meia parte menos um voto, justo pelo qual perdemos na guerra do condomínio.  Quem sabe amanhã eu esteja nos jornais no meio de um puta mistério internacional envolvido com a venda de aviõezinhos de brinquedo para caçar sei lá o que,  ou submarinos nucleares de quinta categoria. Quem sabe…

           Mas neste momento, eu percebo apenas que acaba de acontecer  o que há muito tempo eu destinei a esta pessoa, agora morta, minha vizinha,  um dos destinos que estava no final deste meu conto.

           Termina assim, ó:

         Perco-me em delongas do fim que proporcionarei  aos desconhecidos deste POMBAL DE GENTE INACABADA. Já fui  responsável  pelo sumiço de amores mil, amizades cem e paixão nenhuma. Exterminei pombos da paz. Envenenei  ninhadas de gatos. Matei cachorro a grito.  Atirei no escuro numa pessoa que se mexia a esmo.   Cismo até que certa vez ajuntei cicuta à cachaça do santo e dei-a  de beber ao pecador impuro. 

       E por que então eu não me sinto agora mais em condição de terminar este conto com um assassinato e tanto aqui neste prédio da 212 Sul de Brasília?  Ou apenas uma morte, mesmo que ela seja a mais normal aqui por estas bandas, ou seja, a morte por tédio.

       Ando de um lado ao outro do pilotis   à procura de inspiração para esta minha  tamanha  incapacidade pistoleira. Inanimado,  penso aqui comigo:

       Alguma noite, alguém vai morrer neste meu prédio. Deus é grande. Isto vai acontecer.

        E não é que, até que enfim, agora há pouco, minhas preces foram atendidas?

         A única coisa que está me incomodando é este choro alto vindo lá de baixo. Não estou nem conseguindo escrever direito.

         Acho que vou interfonar pro porteiro outra vez:

         – Carlito!

        – Que é, seu Mamcasz.

        – Manda esta pessoa que está chorando calar a boca!!!

        – Não dá, seu Mamcasz.

        – Não dá porque, Carlito?

        – É a filha da mulher encontrada morta.

       –  E EU COM ISSO, PORRA !!!!!!!!!

 ( O fato que se deu foi o seguinte. Uma mulher, professora, branca, perto dos 30 anos, mãe de uma menina com seis anos, que estava na casa da irmã, no Guará, casada com o marido que estava de viagem a Minas, foi encontrada enforcada num dos apartamentos deste Pombal de Gente Inacabada. Não virou notícia de jornal porque repórter que se preza, aqui em Brasília, noite de sábado, está mais é enchendo a cara de caipirinha e falando mal de tudo aquilo que a gente não coloca no olho-no-olho, olho-no-ouvido, olho-no-dedo. E, de fato, quase ninguém conhecia a ex-pessoa, que estava no prédio há mais de um ano, vindo de outro, aqui na mesma dita Super Quadra Sul de Brasília, uma ilha, sim senhor, cada um na sua. )


            Brasília sempre teve dessas coisas, além da Esplanada dos Mistérios. Isto, no tempo do Clube do Ócio, primo do Nuvem Cigana, quando a gente era do Cabeças, tinha Bric-a-Brac, Poetas Porretas, Grande Circular, Ministéricas, Liga Tripa – trupe não oficial. Aliás, além das idas à Feira de Trocas, em Olhos d’Água, e aos sítios em Cristalina, Goyaz, a gente, naquela época de Poeta Marginal, hoje yuppie malfadado na Capital da Esperança, que chega aos cinquenta anos cheia de mágoas, pois bem, a gente sempre teve uma proposta na ponta da língua, entre uma pichação e outra no ‘Sinto a tua sede, parede”.  A proposta é a seguinte e ainda vale o quanto presta:

        –   O que você acha de trocar a Esplanada dos Mistérios, de Brasília,  pelo Morro da Mangueira, do Rio? Leva os daqui para lá e coloca os de lá aqui. Se quiser trazer o Piscinão de Ramos, tudo bem. A gente faz qualquer negócio.  E ainda dá brinde a Praça dos Podres Poderes.

 

Muros de Brasília - photo by Mamcasz 

           Tudo isto porque morreu ontem o poeta andarilho e cantor mambembe Paulo Tovar, nosso amigo desde os primeiros tempos de Brasília. Mais um na listona dos fantasmas. Já estava quase isso, com câncer no cérebro. Justo de onde saiu, entre tantas, esta pérola:

               .  Qual destes vícios mata primeiro: a falta do amor ou a falta do dinheiro?

           Mas, enfim, como escreveu o compadre Turiba, fazer o quid neste quiprokó?

            . É sempre assim: quando um poeta descansa, toma rumo e pede passagem; é mais um verso que se faz lágrima na plumagem.

           De saída, solto mais uma do agora fantasma Paulinho Tovar, que vivia pedindo um espaço aqui na Rádio Nacional (fantasma…)  para os livros  ou para a música ou para a porra dos amigos, nosotros – polacos ou brasilenhos:

           . Meu coração tem um desejo imenso de ver o dia nascer pelo avesso…

            Boas caminhadas, então, Paulinho Tovar, pelos céus de Brasília. Só não vá cair em cima da minha cabeça. Porque  cabeça é tudo. Merda mesmo foi saber de sua morte no Correio Braziliense justo na página DIVIRTA-SE. Inté, Axé, Clique a seguir e  Escute Aqui o Marco Zero:

 

<iframe style=”margin: 0px;” src=”http://www.podcast1.com.br/ePlayer.php?arquivo=http://www.podcast1.com.br/canais/canal1618/Tovar_Marco_Zero.mp3” frameborder=”0″ width=”450px” height=”60px” scrolling=”no”></iframe>


Caça aos fumantes - photo by mamcasz

Esta é uma campanha da CIPA 1, da área administrativa. Não tem nada a ver com a CIPA 2, da área-fim, que continua na briga pelo fim das insalubridades, principalmente a causada pelas ondas magnéticas da radioatvidade, também provocadora de câncer, além de batalhar por um ambiente de trabalho mais sadio, com nova sede e tal.

 

Fumódromo - photo by mamcasz

 

Não seria melhor ajeitar o visual do fumódromo do que ficar mandando  os futuros Fantasmas da Rádio Nacional direto para o cemitério? Isto fica me lembrando a sacana da minha avó polaca, babucha Sofia, no interior do Paraná,   que fazia a gente bem criança responder no ato, antes de ganhar o fato, na forma de um doce qualquer. Repasso a pergunta de minha avó: 

 

– Se o piá aí um dia estiver  morrendo de fome, o que você escolheria comer para continuar vivo: merda, ranho ou catarro?

« Página anterior