Radio



                        Dia dois de fevereiro, dia de Iemanjá, a deusa do mar.

                      Ainda que, no meu caso, Iemanjá é minha Mãe Iara, a deusa da fonte de água doce onde fui rebatizado, com galho de arruda, no olho d’água, depois de ter tido a cabeça molhada na dita água benta da igreja dos capuchinhos.

                      Tudo isto lá no interior do Paraná, nada de sincretismo religioso da Bahia, para onde acabei depois me mudando, entre o Rio, Porto Alegre e Brasília.

                      E minha Iemanjá, no caso a tia Aline, que sempre foi minha segunda mãe, hoje faz aniversário. Liguei pra Atibaia.

                   – Não tá.

                  Embarcou sozinha, num ônibus, para a Princesa dos Campos Gerais, Paraná, nossa terra de origem.

                  Religuei prá lá.

                 – Parabéns.

                – Sabia, Édio, que não ia me esquecer.

                – A senhora não tem vergonha de largar o marido, os filhos, os netos, e passar o aniversário longe de casa?

               Ouvi então a resposta magistral:

             – Ah, Édio, hoje estou fazendo 75 anos e achei que merecia uns abraços diferentes.

                 Moral:

              Esta é a minha mãe Iemanjá que faz aniversário sempre no dia dois de fevereiro.

               Salve, salve, mãe Iara-Iemanjá.

               Ela diz que sempre me escuta aqui na rádio.


                     A respeito do final do post abaixo e diante da incredulidade de uma jovem, hoje de manhã, quando eu jurei que estava pensando apenas na música.  

                    Faço então questão de transcrever o parágrafo inteiro do capítulo Samba Pa Ti – Santana, do livro que ganhei de presente, o 31 Canções, de Nick Hornby.

                    Aliás, ele aparece numa entrevista ótima, neste domingo, no Serafina, da Folha de São Paulo, com foto junto ao Skate of Mind dele e o título Um Garoto Grande.

                    Mas vamos ao parágrafo tira-dúvida:

                    “ Ela começa devagar, misteriosa e linda, depois fica mais urgente e então … Bem, então se desvanece. ( Aliás, a faixa dura quatro minutos e quarenta e sete segundos; mas antes de ser acusado de estar me exibindo, eu previ que faríamos outras coisas na parte lenta – beijar, tirar a roupa, possivelmente esperar o ônibus para ir para casa depois do cinema -, por isso estava seguro de que poderia ir até o final da música). ”

                  E aí, manezinha, não dá vontade de escutar a música  ?


                      Acabo de ler o que aconteceu debaixo de minhas vistas cansadas, no ambiente da rádio. Respondi o seguinte, confesso que meio constrangido:

                     Preclara estagiária do cabelo de colibri. Perfeitas estas tuas observações e olha que compartilhamos o mesmo espaço laboral (?) e nossa abissal diferença de idade, o que não me impede de admirar a forma com que te exprimes por escrito, decretando o dito pelo dito mesmo.

                     Embora eu compreenda o teu pesadelo diante de babões enfadonhos, gostaria de, por causa deles, não ser preciso trocar eventuais elogios por atitude agressiva que permitam a gente levar começos de conversa inteligente, dentro do possível naquele ambiente deveras abaixo do mínimo.

                     De qualquer forma, quando estive na CIPA e na Comissão dos Funcionários, sempre lutei contra uma forma de insalubridade que considero a pior, que é o assédio moral, aí incluídos alguns dos teus corretos desabafos.

                    Deste teu colega que nem te nota (?) mas que te usarei agora no CtrlC + Ctrl V.

                   Mamcasz

                  Agora, vamos ao texto integral do justo desabafo. O endereço dela é o seguinte:

                  http://lunnadispersi.blogspot.com/2010/01/o-mal-pressagio-do-elogio.html#comment-form

                


                       Ministério Público, Polícia Civil e Conselho de Medicina investigam morte de jornalista em Brasília durante lipoescultura.

                      Perfeito.

                     Foi mudado o delegado.

                     O médico disse que está doente e não pode depor.

                     A imprensa deita e rola.

                    Acontece que, vindo da rádio para casa, na W3 Sul, altura da 11 ( só quem é aqui da ilha entende estes códigos ) vejo e revejo este big cartaz colado numa casa perto de onde funciona uma “sauna chique”.

                  Quer dizer.

                 Ou só eu estou vendo o rei nu ou então somos um bando de imbecis à procura do protótipo de beleza custe o que custar, mesmo que a vida.

                  É muito anúncio escarrado de lipo bioplástica, tumescente, comum, invasiva, escultura, fracionada, aspirativa, hidro, úmida, light e tantas outras.

                Então, faça que nem eu, veja e reveja os termos expressos no muro:

 


                       Hoje, uma amiga contida e reservada está fazendo 40 anos.

                      Daí que me saiu o seguinte que já lhe mandei.

                      Fulana.

                      1 – Em não tendo sido possível hoje de manhã o abraço físico,

                      2 –  Em tendo visto no BB a Hora da Estrela,

                      3 –  Em estar para ler Clarice Vírgula,

                      4 –  E neste instante sorvendo o conto Estado de Graça …

                      Então, neste teu quarto enta ingresso, desejo que freqüentemente sejas inquilina desse tal estado de graça, não como se estivesse em transe – não há nenhum transe, também é bom que ele demore um pouco, mas não o bastante, para que a graça não desapareça, e porque se sai dele melhor criatura do que se entrou, com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos e, embora não se tenha sorrido, é como se o corpo todo viesse de um sorriso suave.

                           Concluindo, com os acréscimos adaptados ao texto original da Clarice Lispector:

                           Um feliz novo enta decimal a fim de que ultrapasses o centésimo.

                           Até o próximo. 


                       Peguei hoje o livro ” Taguatinga-duas décadas de cultura ” , com fotos do Ivaldo Cavalcanti.

                       Foi para escanear umas fotos para a estagiária com olhos de camelo e resmunguenta que nem tia velha.

                      Taguatinga, para quem é de fora, é uma cidade do DF. Sempre teve vida separada de Brasília. Enquanto aqui rolava Cabeças, Grande Circular, Minstéricas … lá acontecia a outra porção do caldeirão cultural.

                     Década de 80. A gente dizia, oi … tenta! (e né que rolava?).

                     E as fotos do Ivaldo mostram Luiz Melodia e Plinio Marcos no Teatro Rola Pedra, os punks na Praça do Relógio, boates London London, Paralelo 15 e Clube dos 200. Mais o Bar do Careca, Botequim Blues, Diretas Já (?), Faculta…

                     Então, pelo serviço, roubei da estagiária esta foto, feita pelo Ivaldo Cavalcanti, do eterno amigo Renato Matos. Ecumênico que só ele, atuava da Asa Sul à Samambaia, quando não estava gerando áureos filhos em Olhos D´Água. 

                        Em legenda à foto, relembro quando a gente cantava junto os versos ao telefone apaixonado:

                        Um telefone é muito pouco quando a gente ama como um louco e mora no Plano Piloto …


                        Domingão sereno em Brasília, deixo meu irmão no aeroporto, depois de uma semana de hóspede dependente, e volto pra minha doce caipirinha.

                         De chegada, a notícia da morte da mãe de uma amiga  ex- Rádio Nacional que hoje vive no Canadá e veio correndo para a passagem.

                         Fui até o Campo da Esperança, procurei por uma das capelas, dei um abraço forte na amiga e, na saída, capela ao lado, eis que um amigo antigo, Ariosto Teixeira, gaúcho dos tempos em que o último sinal de vida, na Asa Norte, era o Bar do Poeta, na 408, e a gente morava na 416…

                        Pois então.

                        O Ariosto Teixeira, 56 anos, estava deitado eternamente no caixão exposto ao centro.

                        Poeta conjunto, dos ditos tempos da Poesia Marginal, permanece dele, de físico mesmo, o poema criado nas estranhas entranhas:

 

” Às vezes você se pergunta

Olhando o rosto no espelho

Se o reflexo é verdadeiro

Ou se a verdade é o corpo

Parado no meio do banheiro

 

Você acha que sabe bem o que é

Você acha que sabe bem o que quer

Você acha que sabe quem você é

 

Mas você sente medo

Medo de não ser você no espelho

Medo de ser mero reflexo

Do outro que consigo parece

 

Você não tem medo de sexo

Você gosta de sexo

Você sonha com sexo

Você procura fazer muito sexo

 

Sexo à distância

Sem beijo sem fluido

Higiênico e sem lirismo

Seguro como sexo com prostituta

Você de frente ela de costas

Ela por cima de costas

Você por baixo de costas deitado

 

É que você tem medo

Do ataque de um vírus complexo

Medo de gravidez

Medo de se apaixonar irremediavelmente

Medo de perder o controle

Medo de assumir o controle

Medo de que tudo enfim faça nexo

 

Você acende e apaga o cigarro

Com medo de pegar câncer de pulmão

Medo de apagar a luz

Medo de acender a luz

Medo de desligar o alarme

Medo de abrir o portão

Medo de ladrão policial pivete

Medo de colisão

De atropelamento

De ataque do coração

 

Medo de padre

Da certeza cristã absoluta

Da democracia liberal

Da esquerda latina

Medo da nova direita francesa

Medo do presidente americano

Medo da falta de medo do terrorista muçulmano

Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda

 

Medo da China capitalista

De milho transgênico

De buraco negro

De carne vermelha

Medo da falta de limite da física quântica

Do aquecimento global

Da inteligência artificial

De velocidade acima do permitido

De remédio de quinta geração

Da globalização

Do fim da globalização

Da falta de sentido

 

Medo de que Deus provavelmente não exista

De não haver outra vida

Você tem medo de ficar sozinho

Sem ninguém nem final feliz

 

Ah mas você confia no amor

O terno e doce amor

Do homem pela mulher

Do homem por outro homem

Da mulher por outra mulher

Do homem pelos animais

Da humanidade pela natureza

Você confia no amor das criancinhas

 

Você pensa nessas coisas

E por um instante

Acha que nada está perdido

Que o amor salvará o mundo

O amor romântico como no cinema

Como em um soneto de Shakespeare

Apesar da podridão no reino terrestre

 

Mas quanto tempo dura o amor

Antes de se dissolver em tédio

15 minutos uma tarde inteira uma noitada?

 

Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente

Mas é impossível ser de outro modo

É preciso agarrar-se a algo

Não ter medo de que o vazio

Tenha se espalhado em todos os quadrantes

 

O fato indiscutível é que você tem medo

Medo muito medo

De ficar vivo durante o inverno nuclear

 

Você principalmente tem medo

Do que um dia vai fazer

Quando ao anoitecer

O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro. “

                                   Buenas, tchê!!!


Inspirando-me no meu “coleguinha” de redação, Mamcasz, minhas primeiras postagens do ano seguem a linha “planos para 2010”.

Para saber mais,  acesse a lua dispersa da estagiária com cabelo de colibri:

http://lunnadispersi.blogspot.com/2010/01/promessas-para-2010-casa-de-tortura.html

 


                                      Estou aqui na Rádio Nacional na escuta de um estagiário que, por sua vez, finge prestar atenção na fala de uma tia pretensa jornalista que lhe arremata o seguinte torpedo, depois de uma porção de abobrinhas amazônidas:

  • Se você fosse filho da minha mãe já tinha levado umas palmadas 

                                   Diante do silêncio constrangido do estagiário, e dos poucos lúcidos em volta, matutei aqui comigo, achei que ele não deve ser tão passivo assim e, pouco depois, em espaço neutro, lhe perguntei do porque da paradice diante da babaquice da mocréia.

                                 Ele respondeu: 

  • Mamcasz, meu caro, você sabe que lhe prezo.
  • ???
  • É que eu não sou tão óbvio assim como pareço. Por isso, lhe recomendo o seguinte blog, que reúne os apreciadores de nuvens (???):

http://obviousmag.org/archives/2009/02/fotografias_de_nuvens.html

                                    Moral: não é a toa que eu falo aqui que estagiário que se preze continua à procura de um novo vôo em nuvens nem tão óbvias assim.

                                     Então, inté e axé, tá?


                  Coloquei o post aí abaixo, agora há pouco, falando dos militares e dos ongueiros brasileiros, uns mortos, outros feridos, lá no Haiti.

                  Agora, chega a notícia confirmada.

                  Dona Zilda Arns, tão amada e conhecida pelo trabalho na PASTORAL DA CRIANÇA, foi pega de surpresa pelo terremoto no Haiti. Ela estava na base militar brasileira naquele país. Tentava oferecer, além da espada, o pão, ainda que bento pela cruz, mas, neste caso, para matar a fome do povo.

                  Uma vez entrevistei Dona Zilda Arns, aqui na Rádio Nacional, quando ela passava o arquivo completo da Pastoral da Criança e do Idoso, para o falecido programa FOME ZERO. Noutra vez, em Salvador, no Congresso de Turismo Sustentável, onde ela acusou, outra das muitas vezes, a exploração sexual das crianças brasileiras. Muitas delas, mortas ao nascer, por conta da pobreza, com certeza dona Zilda está   reencontrando, agora mesmo, noutros páramos.

                     


                      Primeiro, uma perguntinha que corre pelo Rádio Corredor:

                                   – Quantos a Rádio Nacional está mandando para o Forum Social Mundial de Porto Alegre e quantos para o Haiti, onde há militares brasileiros mortos e ongueiros brasileiros feridos.

                                  Segundo, em sendo o Haiti um país muito do católico apostólico romano, está difícil de ver uma ambulância nas imagens. É o povo por conta dele mesmo.

                                  E cadê as ambulâncias dos onze mil militares de 16 países, inclusive o Brasil, que estão ocupando o Haiti, desta vez, desde 2004?            

                                 – Afinal, o Haiti fica onde mesmo? (Esta é para responder ouvindo Caetano em O Haiti … é Aqui). Clique e ouça, através da Rádio Mamcasz, no podcast, o Trocando em Miúdo do Haiti:

http://www.podcast1.com.br/canais/canal1618/MIUDO_MAMCASZ_HAITI.mp3

 

Haiti.
Hoje, novamente destruído.
Desta vez, por onze terremotos.
Acontece que o Haiti já estava destruído economicamente há muito tempo.
Está ocupado por onze mil militares de dezesseis países, entre eles o Brasil desde 2004, quando o mundo prometeu a liberação de muitos recursos para a reconstrução do país.
A maior parte do prometido não chegou.
O Haiti continua sendo o país mais pobre das Américas.
Segundo relatório do Fundo Monetário Internacional, mais de oitenta por cento da população sobrevivem abaixo da linha da pobreza, muitos situados na chamada pobreza extrema.
De cada três haitianos, dois continuam desempregados.
A taxa de analfabetismo é de 50 por cento.
A expectativa de vida, de 51 anos, quase vinte anos a menos do que os outros países latinoamericanos.
Tem muito mais coisa acontecendo além do terremoto no Haiti.
Segundo relatório da UNICEF, pelo menos 250 mil crianças vivem no Haiti em regime de servidão, que é a escravidão moderna.
E olha que o Haiti, em 1804, foi a primeira colônia dos europeus a ficar independente nas Américas.
Foi numa revolta de escravos que venceram as tropas unidas dos franceses, ingleses e espanhóis.
Todos de olho na então Haiti que era, no século 17, a mais rica colônia das Américas, por conta do açúcar, que disputava mercado com outra colônia famosa na época, que era o nosso Brasil.
Muita coisa mudou no Haiti desde aquela época de riqueza.
A partir de hoje, com o terremoto, fica mais difícil ainda sua reconstrução.
É coisa para menos arma e muito mais dinheiro.
Então, inté e axé, tá?

                

Acima, Exu. Mais acima, a Cruz. No meio, a Espada. E o povo do Haiti, adonde fica?


                       Filha mais velha da Rádio Nacional, gerida pelo Getúlio Vargas, ainda na época em que ele amarrava cavalo chucro no obelisco em frente ao prédio do Senado, o programa A VOZ DO BRASIL é a mais mal falada de todas, inclusive as mães daquelas outras mais velhas ainda.

                       Pois apesar de bem velhinha, A VOZ DO BRASIL agora tem até twiter.

  Hey there! avozdobrasil is using Twitter.

http://twitter.com/avozdobrasil

                        E para não ficar apenas na chapa branca, oficial, nacional, visão tapada, acesse o seguinte you tube que aqui coloco sem pedir licença mas que está inserido na prosa. Como diz o profeta: tem tudo a ver com a nossa história. É a cara descarada. Clique!

  http://www.youtube.com/watch?v=VhyoJiPdFhE

 

                       

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