Ficção



Quando vejo São Paulo, alguma coisa acontece no meu coração.

É que sempre me lembro dos heróicos bandeirantes.

Com indômita bravura, eles desbravam os sertões.

 

“Na longa caminhada até São Paulo,

os bandeirantes chegam a cortar os braços de alguns índios

 para com eles açoitarem os outros.

Os índios velhos e crianças que não conseguem mais caminhar,

eles matam e dão de comida aos cachorros”

( Padre Pedro Correa, jesuíta )


–  Ninguém vai bater no meu povo, não !!!

Um padre anônimo.

No faroeste de Goyaz.

Ao vivo na Globo.

Corre à porta da igreja.

Destranca os cadeados.

Abre a porta do templo.

Antes de tocar o único sino

Na amena torre qual Cristo

Ele proclama ao rebanho:

–  Ninguém vai bater no meu povo, não !!! 

– Podem entrar!

Entramos.

A cena não é roteiro de cinema não.

É real.

Acontece no  Velho Oeste do Brazil.

 Santo Antônio do Descoberto.

Goyaz.

Entorno do Distrito Federal.

O rebanho obra o dia inteiro em Brasília, a 50 km.

E se aboleta de noite, passada a ponte esburacada.

Fronteira México-Estados Unidos.

Tão  Inferno.

Quão perto do Céu.

Esplanada dos Mistérios.

Praça dos Podres Poderes.

Hoje, o pau quebra.

De um lado o povo.

No meio, a praça.

Do outro, os meganhas goianos  dão porrada.

O prefeito David Leite provoca na rádio comunitária:

É coisa de meia dúzia …

É gasolina de otário.

O secretário de Insegurança de Goyaz, à distância, 150 km, inflama: 

– Isto é desobediência civil!!! 

Melhor que ele leia antes Henry David Thoreau (1849). 

DESOBEDIÊNCIA  CIVIL  JÁ  !!!

http://thoreau.eserver.org/civil.html

P.S.

No final do dia, o padre Marcelo Freitas, este é o nome dele,  do Santuário Santo Antônio, com a negra batina, agora um ser midiático nacional, fala o seguinte ao G1:

 

“Pedi negociação,

 pedi para conversar e dialogar com a polícia.

 Disse que se eles quisessem fazer algum ato,

mesmo que fosse de direito do Estado,

que não fosse dentro do terreno da igreja

 porque eu não dava essa autorização”.

 

Bem no estilo dos falecidos padres dominicanos na época da repressão, dos finados  freis Beto e Leonardo Boff,  dos bispos Evaristo Arns, Helder Camara e outros ex-santos teólogos da libertação. É, não se faz mais PT como antigamente.

Para ver o padre do faroeste brasileiro, clique abaixo:

 http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/01/nunca-tinha-visto-uma-guerra-diz-padre-sobre-conflito-em-cidade-goiana.html


 

A foto acima junta duas cobras e um pau.

Primeiro, a Ponte dos Remédios.

Por conta dos desvios do SUS.

Está no balança mas não cai.

Ponte JK. Bichada. Doente.

Vista da Residência da Presidência.

Alvorada Brasileira no Lago do Paranoá.

Acaba de ser invadida por uma pessoa cidadã.

 

 

Minha Brasília é tirana nos segredos.

Aqui, nunca se sabe ao certo do Nada.

A imprensa oficialmente só se homizia.

Neste caso mesmo  dessa  intrusa visita.

O elemento, em nota oficial da PF- GSI-EBC, seria:

33 anos, separado, mineiro, dono de Pajero.

Universitário.  Mora na Asa Norte.

Funcionário Público.

 

 

Enquanto isto, nós  jornalistas nos calamos nos perguntares:

1 – Poderia ser filho de alguma ex-autoridade?

2 – Poderia ter nome completo?

3 –  Poderia  o carro ter placa?

4 –  Poderia estar morto?

5 – Poderia ser você?

6 – Poderia ser eu?

 

Mais uma e a última sempre é a melhor:

 Poderia  ser algum  ex-morador bêbado?

 


Quando cai merda do céu, lá vem a frase do Zé Povinho:

– Com a ajuda de DEUS, eu vou melhoral, melhoral …

É melhor e não faz mal.

Faz sim.

Pela ordem, cumpanheirada.

 

1)      – Em um mês, duas intervenções do Exército Brasileiro no Rio (Alemão-Friburgo).

           Para limpar as  merdas divinas  das autoridades terrenas.

 

2)      – Enquanto isto, onde estava DEUS?

           Em Paris, na cama com o Cabral. Desde 1.500…

 

3)      – Três perguntinhas básicas:

 

a.  DEUS sabia das 700 mortes?  é muito mais do que isso?

 

b.  DEUS sabia que os pobres estavam estuprando a Mãe Natureza?

 

c.  DEUS sabia de tudo?   não fez nada?  por que?  hein?

 

 

 

Este é o meu novo livro de cabeceira.

DEUS – UM DELÍRIO.

De  Richard Dawkins.

Um dos três maiores pensadores da atualidade.

Diz-se que quando uma pessoa tem delírio, é maluco.

Quando  junta  uma porção de malucos, vira religião.

Daí, tem mais é que arranjar um DEUS.

Se católico,  queima  gente na fogueira da Idade Média.

Se muçulmano,   estoura torres gêmeas e muito mais.

Se judio,  estraçalha os palestinos e não os nazistas.

 

Moral duvidosa:

 

– Qual deus jogou merda do céu em cima da região serrana do Rio?

  

 

 

“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes.

Em que estrela tu te escondes

Embuçado nos céus?”

( Castro Alves )

 

 “Como pode Deus permitir a morte de centenas,

de milhares de inocentes?”

Voltaire – 1755- após terremoto de Lisboa

 

” Deus tenta rezar, tenta rezar pra quem?

Deus não vê ninguém…”

Lobão – Pobre Deus.

 


“Começo hoje uma viagem incansável para investigar onde mora o eu que há em mim … se é que mora alguém”.

Lobão – 50 anos a mil .

Notre Dame de Passy – Paris – 2011


Pesquiso na internet como calcular o salário mínimo da classe micha brasileira.

 É para minha  coluna de Economia numa TV tupiniquim.

E encontro esta pérola no blog da GlorinhaMam:

 

“A melhor forma de calcular o valor do salário mínimo

 é virar as costas para este covil de filhas da puta

 e mandar todo mundo prá puta que  pariu.”

 

 Vixe mãe  (virgem?)  santíssima !!!


La Butte aux Cailles – Paris 13


Neste  11 de 1 de 11, (um indeciso entre dois um), fiz 63 anos.

Destaco o seguinte presente recebido da consorte:

 

 

Já arrebenta no prólogo.

Lobão e Cazuza num velório, de madrugada.

Preparam duas fileiras enormes de cocaína.

Na tampa do caixão fechado do amigo Júlio.

E rezam juntos:

É a hora dos come-quieto nos fazerem de vilões.

 

 

Não se enganem: o melhor ainda está por vir.

Essa promessa eu fiz aos meus amigos.

Ao pé de suas lápides.

Lobão


Onde tem Niemeyer, estou lá.

Seja Niterói, Nova Iorque, João Pessoa ou Berlim.

Principalmente Brasília, onde me acomodo e adoro passear de madrugada, depois de alguma noitada em casas amigas.

Pois agora em Paris fui à Place Colonel Fabien.

 Fica  na parte alta de Belleville, subúrbio parisiense que omisia argelinos, indianos, turcos, negros, brasileiros e todos os ladinos do mundo.

Tudo isto para conhecer uma das obras mais antigas do nosso grande Niemeyer.

É a sede do Partido Comunista Francês – PCF.

 Falando sobre esta beleza, no Pariscope (revista semanal que custa 40 cents de euro),  5 au 11 janvier 2011, o designer Matali Crasser diz o seguinte:

“J’adore cet architecte (Oscar Niemeyer) –  très audacieux et il y avait un magnifique savoir-faire.

 Il suffit d’observer les façades et les vitres, la façon dont  elles on été pensées.

Comme souvent avec Niemeyer, il y a quelque chose de simple, d’accessible à tout le monde.”


 Anistia para  Edith Piaf.

Nesta  ida a Paris, vasculho  traços perdidos dessa Edith Piaf.

Sobrevive  aos 20 no trottoir do bas-fond (puta).

Chansonnière da zona.

Chegada à morfina, morre aos 47, magricela, baixinha e feia.

Mas cercada de amantes bonitos, entre eles o Ives Montand.

Ou Marcel Cerdan, campeão de boxe.

Sepulta-se na multidão do cemitério Père Lachaise.

Perto da rua de Belleville, onde nasce.

Ali,  vejo hoje apenas uma porca e parca placa.

Merecedora de uma anistia ampla, geral e irrestrita.

A lesma lerda  no Café Menilmontant.

 A pequena meretriz com voz de Piaf  (pardal) canta:

 Milord, je ne suis qu’une fille du port, qu’une ombre de la rue.

Acá, eu vejo o nada.

 Até a garçonete com cabelo de colibri se espanta com o passado.

Ela  sabe por mim que  Edith Piaf ali ainda marca presença.

Hoje evaporada no devaneio da morfínica modernidade.

Insisto, não desisto e sorvo na bar e na  Place Edith Piaf, Porte de Bagnolet, o último canto do passarinho.

 Hoje completamente esquecida na Paris dos tempos de Sarkozy e Carla Bruni.

 Prefiro minha pequena meretriz solfejando latente no meu ouvido morno:

– Mamcasz! Je me regrette rien, je me fous du passé…

– Pardon, Piaf!

– Não tô nem aí. Tô cagando pro meu passado.

– Edith … olha os modos …

– Phoda-se, mon cheri.

Il faut se méfier des mots

Tem mais é que ter cuidado com as palavras

Phoda-se, meu.


Gente!

Acabo de chegar de  outra viagem a Paris, não vi a posse nem a virada   nem nada.

Amei!

Apeio em  São Paulo, a maior cidade da América Latrina, a caminho de Brasilha e no ato ressinto que tudo está tão diferente, sem as filas em zigue-zague, o aeroporto poeirento, um banheiro com dois vasos sujos para trezentos chegantes, poucos estrangeiros, nada de classe média micha, tanto que sou recepcionado por funcionários públicos da Polícia e da Receita (Federais!), todos lindos, sorridentes e solícitos:

– Bom dia, como vai cidadão, a viagem está boa?

E tudo isto antes mesmo de mostrar meu passaporte diplomático que eu tenho desde criancinha porque sou filho de pai operário, analfabeto e cachaceiro,  no interior do Paraná (com esta localização, de fato, escapo da censura!).

Portanto, cá está mea culpa na foto abaixo tirada em Paris, nesta semana, fica na Rua Oberkampft, entre as bulevares da Republique com a Beleville, que termina na Menilmontant. Tudo uma merda. Bom mesmo é aqui no meu Brasil onde, na volta, não vejo mais mendigos, crianças pedindo esmolas, meninas dando nos postos de gasolina por alguns trocados, gente passando fome, nem nada. Nada, mesmo. E os detratores ainda falam mal da Bahia, phode?

Estou de volta. 

Inté e Axé!

Merci!

 


 

Bom Ano Novo Vida Nova Gente Boa  

 

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que  eu naufrague na ilha da virada

continuemos  eu e você  neste meio que periclitante 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                          

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem  vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que eu sucumba na praça do embora

enfrentemos  eu e você  os anônimos inoperantes

  

  

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que eu desapareça nos becos do sem fim

nos veremos eu e você nas penumbras do esperante

   

 

 

 

 

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que eu vire poeira cósmica do infinito

ressuscitemos  eu e você  no saudoso estilo triunfante

   

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que eu ascenda  degraus amortecidos

abracemos  eu e você  o você do eu incandescente

 

 

 

 

 

 

 

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que eu pise no solo da marciana lua

juremos  eu e você  sorver igual gosto triunfante

 

 

 

m

  

  

 

Eu posso ser ou não ter

ano novo tão bem vida nova

mas se nos nove fora der quase nada

mesmo que eu tenha menos do que  preciso

dividamos eu e você mais do que o  sobretudo

multiplicado do impreciso e adicionado  improviso

  

 

 

  

 

  

Eu +  Eu devemos

bem lá na frente

em dezembro

deste 2011

nos ver

 

 Inté e

axé

 

 

Mamcasz

Zen & Poet

New 2011

 

 

Pense … ainda não está proibido!!!

 

 


              Adoro Clarice Lispector.

             Hoje, ela estaria fazendo 90 anos aqui ao meu lado.

            Daí, eu  me lembro dela me dizendo ao ouvido naquele érre intervocálico nasalado que me deixava todo teso:

             Eu gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.

              Eu tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.

              Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:

               –  E daí?  Eu adoro voar!

                Então eu acordo.  Abro os ouvidos. Só para escutar um monte de merda de um  bando de analfabetos funcionais.

                Uma pena que tenham tirado minhas asas.

               – Liga não, ô polaco.

               – Quem taí?

               – É o Noel:

                É tudo João Ninguém

                Não têm ideal na vida

                Além de casa e comida

               Nunca se expôem ao perigo

               Nunca têm um inimigo

              Nunca têm opinião

             Gente. Eu também quero entrar nesta roda com  o meu novo sambinha.

             Diga lá, Oscarzinho:

             Daqui para a frente.

             Vou parar nos cafés para ouvir historinhas

            Coisas da vida

            Que um dia vão ter que mudar.

           ( Do Samba “Tranquilo com a Vida”.  Letra de Oscar Niemeyer, 103 anos ).

           Antes de sair, acabo de me lembrar de uma das minhas primeiras idas de estagiário de jornalismo, no Rio, O Jornal, faz tempo.

           Copacabana Palace, lançamento de disco do gringo Sérgio Mendes.

           Na varanda, lá pelas tantas, olhando o mar, o Jorge Amado, o Oscar Niemeyer e este estagiário embabacado de tudo. Entalado de vez.

           Daí, o Niemeyer se vira para mim e propõe:

           – Tá vendo aquela ilha lá no fundo? Vamos ficar calados, nós três (tinha o Jorge…), só para ouvir o som da água batendo na areia fina que dá uns acordes mais suaves que os das Bachianas do Villa Lobos. E ficamos …

          Moral

         Volto para a redação, Rua do Livramento, Santo Cristo,  todo borrado de felicidade. Levo o meu primeiro furo de reportagem mas quase perco o futuro  porque não tinha nada para escrever. Ficamos os três (eu, Jorge e Oscar) só ouvindo o som que vinha daquela ilha.  Ah… e bebendo uísque.  E ainda contei isso para meu sargentão primeiro chefe de reportagem.       

         Não é a toa que acabo de ler num livro do Celine, Viagem ao Fim da Noite, que o melhor da vida da gente é sempre a reminiscência.

         Inté e Axé!

             


 

Vendo minha alma

Pede-se preço bom

Até porque o corpo

Não é + promoção


Por que tanto cacarejas,  galinha?

Pergunta Constâncio.

Por que não te calas?

Retruca-me Perpétua:

Só porque  o ovo não sai do teu?

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